Toborrino amigo de Deus

Por: Débora Menegoti

Sr. Zé Coité disse que somos homens sem muralhas. Mas fazemos, a nosso gosto, doutros: escudo. Em nossa hipocrisia queremos acreditar que há cura, mas não nos enxergamos doentes da mesma peba.

É aí que a estrada se deita, se espreguiça e espicha tanto mais quanto pode. Faz parecer que o caminho não tem fim.

Quantos presságios, tantos sinais dentro mim... Gritam na minha mente que o caminho não é um traço devastado e reto. É uma soma de vida e princípios natos ou adquiridos, que me permitem ir longe paradinha, faz-me criança de naninha, observando no chão do asfalto em cócoras um buraco no diâmetro de uma moeda grande, bem fundinho que me engole. Livra-me de contas, tarifas, do preço da vida, dos clientes, das maquinas homens. Ali, não uma marca de britadeira (talvez), mas um caminho de algum animalzinho imaginário, um tipo de furão mais embrutecido de casca queratinosa e dentes de aço, com potente habilidade de furar e pelos estranhos nas costas, uma evolução sem atavismos de um bicho importante, embora desconhecido, por fazer quase imperceptivelmente alternativas de destinos. Mostra em novas direções o encanto, esse furinho que nos leva até o esplendoroso mar, e não para a China; para a ausência de caminho... É um salto vital. É o refresco do Amar, o infinito das águas salgadas. É preciso saber nadar e não se aprende de outra forma. Há de tomar bons goles de susto, beber o infinito firmamento refletido no verde, azul, peixinhos de sal. Tudo permitido por um bichinho anjo aterrorizante no buraco do asfalto. Meu bichinho vai se chamar: Toborrino.

“Toborrino meu fofinho de pedra em brasas, que bom que você não é albino!”

O céu de plástico derretido sorri, o Seu Zé Coité vira doutor de almas mesmo descalço, na estrada certa acha Toborrino um bom companheiro. A aurora vem vindo trazer o sol de fritar a linha horizontal e cocos quentes escondem um Deus boreal e justo para agradar meu pai que me pediu para falar Dele.

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