Para onde está indo a memória?

Por: Everton de Paula

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Li numa reportagem recente que mais de 50% de brasileiros não sabem onde se localiza geograficamente o Brasil: apontaram Cabo Verde, Moçambique (talvez a proximidade linguística), e até Angola. Alguns “quase acertaram”, quando indicaram Chile e Argentina.

Óbvio, sabemos que não se necessita conhecer a posição do Brasil no planeta para se dar bem na vida profissional, social. Mas há de se considerar que esta falta de base em conhecimentos gerais emburrece o homem, empobrece-o culturalmente, colocando-o no primeiro degrau da escadaria do conhecimento humano. E fica evidente a falha brutal de nosso ensino fundamental e médio, antes a educação infantil, primeiro e segundo graus a pobreza de instrução e de avaliações sistemáticas, além de mudanças de grades curriculares e conteúdos programáticos para pior, muito pior não poderia levar a outros resultados mesmo. Só que assusta, assim, quando a coisa se torna pública. Lembra o tolinho que aponta a lua cheia e pergunta ao pai se aquela beleza no céu é a mesma da noite anterior. Só que aqui se trata de marmanjões que, talvez, tenham a linha de atacantes de seu time de cor, mas desconhece a posição geográfica do Brasil.

Se a isto desconhecem, imaginem o que não sabem sobre organização social e política do próprio país? E o que dá nisso? Votar, por exemplo, uma, duas, três vezes no mesmo partido político, dá na falta de cobrança de punição, dá no esquecimento das falcatruas. Este é o tipo do eleitor que votaria em Renan Calheiros para presidente da República.

Quando me dou conta da memória permanentemente exercitada desde a educação infantil (o antigo primário), por minha geração, percebo algo desalentado como a situação mudou neste particular. Corre pela internet, nos dias de hoje, uma anedota externada com o auxílio de caricaturas - um filho pequeno mostra ao pai o mais avançado aparelho de Ipad e pergunta: “Pai, hoje temos isto; e na sua época, o que vocês tinham?” O pai responde, sem tirar os olhos do jornal: “A cabeça, meu filho, a cabeça!”

Se fizermos um recorte no processo de cultura e civilização, veremos que hoje os adolescentes sabem muito mais que aqueles de 50 anos atrás. Mas é um saber pontual, dirigido, principalmente ao cenário da comunicação informatizada. Não exercitam o poder do raciocínio com questões filosóficas, morais, políticas, éticas, exatas e artísticas. Não sei se é um progresso, um retrocesso, ou uma etapa apenas. Sei apenas que isto é verdade. Sabem, pelo Google, que houve uma guerra de Canudos, mas não sabem dizer o porquê, não sabem analisar, suas consequências, abordagens reais e literárias...

As palavras da professora eram recebidas sem nenhuma interferência (entropia, diriam os comunicólogos atuais) e, encontrando campo livre, incrustavam-se para sempre em nossas mentes. Quase sem esforço, decorrência apenas de metódica concentração, sabíamos coisas sem nenhuma importância em si, como os afluentes das duas margens do Amazonas, as capitais brasileiras e quase todas as do países do mundo. Claro que dominávamos as tabuadas e que conjugávamos, no ginásio, os verbos em português, francês, inglês e latim. Ensino puramente memorizado? O psitacismo que os pedagogos condenam? Um hino de louvor à cultura inútil? Creio que não, pois guardávamos entendendo e aplicávamos sempre o memorizado.

Hoje, no caixa do supermercado, dou uma nota de R$ 50 e fico esperando pelo troco de R$ 10. Você acredita que a mocinha do caixa precisa de uma calculadora para saber que deve me voltar uma nota de R$ 10? Assim, os dedos, o mecanismo nervoso funciona muito mais que a memória.

Guardávamos tudo com facilidade (concluo, apenas agora) porque os nossos sentidos não estavam saturados pelo excesso de mensagens, pelas formas todas de apelos exigindo nossa atenção. Como pouco víamos e ouvíamos de interessante fora da escola, tudo o que nos informavam nas aulas era retido e incorporado. Eu nunca tive de reservar espaço em minha memória para os programas e propagandas de TV, novelas, internet, MSN, Orkut, Facebook, tendo sempre de reserva as informações necessárias que hoje são retidas não mais pela memória real, mas sim pela memória virtual dos sites de busca como Google, Wikipédia, Yahoo...

Parece, hoje, que apelar para a memória cheira a velharia: repetindo, porém, elementar verdade, memória foi feita para usar, não existindo, que eu saiba, ninguém que se revolte ou sinta complexo por ter na ponta da língua o enunciado das leis de Newton, a fórmula das equações de 2º grau, os quatorze versos da “Última flor do Lácio, inculta e bela”, as capitais do Egito Antigo, as cinco declinações latinas e, principalmente, os fatos históricos de importância para a compreensão do momento presente.

Bons alunos detestam o adiamento de provas. É claro: a razão disso está em que muitos deles estudam hoje para saber hoje ou, no máximo, amanhã. São como os colhedores das couves que aprenderam a plantar: se não colhidas ao tempo exato, amarelecem e perdem a utilidade.

Culpa deles? Não, porque estudam conforme lhes possibilitam o meio e a filosofia educacional de plantão (em 87º lugar no ranking mundial de eficiência). Raríssimo o estudante que não se prenda à televisão e à internet ao menos cinco horas por dia, avançando na madrugada. Também lançar o demérito ao professor não passa de saída simplista. A cada dia, ele está deixando de ser o grande agente da educação, porque igualmente vem perdendo a luta para a televisão, internet e afins. Nem vou entrar no mérito da carreira docente e do salário vergonhoso que recebem.

Reconheçamos que os jovens de hoje guardam coisas à beça: virtudes e aplicações de mil produtos; frases e cacoetes de trinta humoristas; peripécias de heróis de mil galáxias. Isso sem falar que dificilmente baralham os enredos e personagens das novelas, dos programas da internet, dos comandos dos sites de busca, do MSN etc.

- Onde, portanto, lugar na cabeça para as coisas da escola?

- Como, portanto, suportar atento os minutos todos de uma aula?

Nossas pobres escolas, mormente as públicas, tornaram-se rematados exemplos de instituições retrógradas que, com muito esforço, têm condições de educar para um mundo que já não existe. Porque não nos iludamos: pensou-se que a televisão e a internet viessem a ser uma janela aberta para o mundo, quando não vêm passando de uma fresta por onde desfilam trechos de realidades distorcidas.

Em certos momentos, diante de algumas situações, quase dá para acreditar que a escola é o lugar onde se perpetua o exercício de não aprender a aprender.

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