Policromia poética

Por: Vanessa Maranha

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Octavio Paz, numa de suas conferências, fez uma clara distinção entre poema e poesia. (...)”poema: um objeto feito de palavras, destinado a conter e segregar uma substância impalpável, rebelde a definições, chamada poesia (...)”.

Para ele, o poema é, ainda, um modelo de sobrevivência. A poesia, nele contida, traz imagens que são “criaturas anfíbias: são idéias e são formas, são sons e são silêncio”.

Como então dizer da poesia se ela, em sendo grande poesia, traz o todo dizível e indizível em si?

Essa pergunta-dilema fica como o aftertaste da leitura de “O secreto nome do sol”, o oitavo livro do francano - nascido em Belo Horizonte - Alexandre Bonafim, doutor em Literatura e professor na Universidade Estadual de Goiás.

Editado pela Patuá e lançado no dia 13 de julho na livraria Martins Fontes, em São Paulo, o livro é, segundo Bonafim , a sua obra mais policromada, ao congregar vários livros de poemas fracassados: Celebração das marés, Quando adormecemos na delicadeza e o Cancioneiro do amigo.

Apresentando diferentes tons e ritmos, estrutura não-linear e sobreposta por camadas, não se encontra, de fato, na obra, um tom monocórdio, ainda que certos significantes se repitam, polissêmicos, ao longo dos poemas dando unidade temática e encadeando-os entre si: cavalo, sol, girassol, mar, sêmen. A repetição prismática, na melhor acepção da função poético-literária

Há um perfume acentuado da lírica homoerótica de Garcia Lorca, sobretudo na terceira parte do volume, cujo poema final parece afinal revelar o nome secreto do sol, numa tessitura imagética muito rica, sinestésica, inclusive. No “Ciclo do amigo”, o poeta canta: “o amigo chegou com o verão/ele veio límpido, despido em sorriso,/total como o primeiro homem/ele nasceu para batizar a minha pele/na palavra nunca dita”.

Em muitos dos poemas, inclusive, a remissão, consciente ou não, à antiga tradição poética sufi, com características comuns aos grandes textos místicos, que se valiam dos signos da sensualidade para metaforizar a iluminação interior, embaralhando a sensação à idéia; o ato ao símbolo; o sensual ao espiritual; o sensual ao carnal - o amor em seu caráter iniciático, como em: “(...) O amigo virá,/Dourado/ pleno de luz,/ constelado de incêndios,/e verterá o mel não dos favos,/mas do íntimo da minha alegria (...)”.

Sobre o resultado da reunião de poemas, o autor explica o caráter catártico: “Esse livro também significa um rasgo em vários dilemas de minha vida. Ele é o primeiro de poemas escrito inteiro em Goiás, lugar onde, até bem pouco tempo, tive a fertilidade lírica embargada. Não conseguia escrever nenhum poema no cerrado. Depois, tal livro é uma luta contra a dor da perda amada e contra a solidão. Apesar de eu mergulhar nos escaninhos abissais da dor, é um livro que se encerra com um ciclo de poemas dedicado ao surgimento de um amor novo, repleto de esperança e vida”.


DEZESSEIS LIVROS

alexandre Bonafim

Alexandre Bonafim nasceu em Belo Horizonte (MG), filho de mãe pedregulhense e pai nascido em Claraval (MG), que se conheceram numa fábrica de calçados. “Pedregulho e Claraval são sendas, entremeios, duas asas pontilhando os flancos de Franca. Do Jardim Paulistano, onde ia passear de bicicleta, via a pequena cidade mineira à distância e, sentia que minha sensibilidade era francana, porque moro numa cidade paulista-mineira. Sou mineiro e paulista no corpo e na alma. Herdo a mineirice de meu pai e a delicada astúcia paulista de minha mãe”, conta Alexandre. Estudou Psicologia, mas graduou-se em Letras e, aos 32 anos fixou residência em São Paulo, para finalizar o seu curso de doutorado. Vive atualmente em Goiânia (GO) e é professor de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Goiás, unidade de Morrinhos.

Publicou poemas e contos em importantes antologias em Portugal. É mestre em estudos literários pela Unesp de Araraquara, onde defendeu tese sobre a lírica de Rubem Braga e doutor em Literatura Portuguesa pela USP, com dissertação sobre o espaço na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, importante nome do movimento lírico pós-Pessoa.

Bonafim se autoqualifica “ibérico por inteiro”, com declarada paixão pela poesia sensual de Luis Cernuda Bidón, o grande poeta e crítico literário andaluz do século passado, mas cita Jorge de Lima como seu mestre maior. “O secreto nome do sol” é o seu oitavo livro de poemas, entre dezesseis, ao todo e, talvez, o mais catártico deles.

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Título: O secreto nome do Sol
Autor: Alexandre Bonafim
Editora: Patuá
Ano: 2013

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