Festa de casamento

Por: Marcos Cason

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O casamento estava quase em seu final. Nesta hora, Tiãozinho Primeiro dá uma olhada para o filho mais velho e acena com a cabeça. Sinal de que é hora de ir para o salão onde ocorreria a festa daquele casamento, reservar a mesa, próxima à porta de onde os garçons sairiam com as bebidas e comidas.

O menino montou na bicicleta e “virou uma binga”. Chegou ao salão com o convite, dizendo ao porteiro que o casamento já havia terminado. Correu para a mesa solitária, parecendo que o aguardava e também era como se estivesse escrito: “Pertenço ao Tiãozinho Primeiro - TP”.

Os convidados foram chegando e se acomodando, mas Tiãozinho não tinha pressa, aguardou os noivos para cumprimentá-los ali mesmo, na saída da igreja. A espera deveu-se também ao fato de cumprimentar o pai do noivo, o Geraldo, padrinho do menino da bicicleta, portanto seu compadre.

Um estrondoso tapa nas costas do compadre:

- Eh, casamento bonito, hein compadre?

O olhar do Geraldo, diria até que fulminante em direção ao TP, foi um claro sinal que havia doído e que não gostara. Ele nada disse, apenas concordou com a cabeça, levando a mão direita às costas, gesto que passou despercebido pelo TP. Foram colegas de infância, e Geraldo progredira na vida com sua empresa. Tiãozinho o acompanhava desde o inicio, quando a empresa era o Geraldo e sua mulher. Foi o primeiro funcionário, daí a alcunha de Tiãozinho Primeiro.

Montou no seu Corcel I GT branco, aquele da faixa preta no capô e na lateral, lavado e encerado na manhã daquele dia, e partiu para o salão. Possuía aquele adorno acima do painel, junto ao quebra sol, cheio de bolinhas de pelúcia. Que beleza!

Chegaram ao salão. Mais da metade já havia sido tomado. Sua mulher, com um vestido todo estampado, era modelo copiado daquelas capas plásticas que cobrem as maquinas de lavar, tanquinhos ou botijão de gás. Mas se sentia por cima, afinal era o filho do compadre Geraldo que se casava, e eles tinham sido os padrinhos. A filha caçula usava um vestidinho discreto, sandálias combinando, e destoava da extravagância dos pais. O da bicicleta usava uma camisa coloridíssima, tênis azul escuro e uma bela calça cor de laranja, daquelas que vemos com o Agostinho do seriado A Grande Família.

Começam os garçons. A entrada é batata verde. Verde? Sim, aquela batata cozida temperada com um molho esverdeado. Na cozinha, as tias e os vizinhos preparavam a comida. Que beleza é um pano de prato, não? Aquele mesmo que elas e eles carregam no ombro, pois serve pra tudo, desde limpar facas, garfos, tabua de picar, copos, mesas e também o suor, que teima em escorrer pelo rosto nestas ocasiões.

A bebida é servida em jarras azuis e brancas. O chope era mais barato naquele tempo. O refrigerante não era em embalagem pet, como hoje, e sim em garrafas de vidro, e nossa região sempre foi bem servida por empresas do gênero.

Na época não havia DJ, e sim o sanfoneiro da cidade. Vinha acompanhado pelo violonista e o tocador de pandeiro. Tocavam-se forró, marchinhas e valsas. Lembram-se de uma musica do acordeonista Mario Zan? Chamava-se “Quarto centenário”. Então. O sanfoneiro não conversava, somente tocava e sorria para o povo. A família de TP, pela localização da mesa, era a primeira a saborear de tudo, a primeira carne assada e a primeira bebida gelada.

O Geraldo corria as mesas, agradecendo a todos pela presença, quando TP se aproximou do compadre e desferiu o segundo tapa nas costas:

— “Eta festão, hein compadre?” Pela segunda vez Geraldo lhe aplica o olhar mortífero. Ele ignora.

Todo mundo tem um cunhado que fica mais chato ainda, quando fica bêbado, não é mesmo? Na verdade era concunhado do TP, marido da irmã da mulher, e que morava em Minas Gerais. Aposto que você tem parentes que moram em Minas. Acertei? Todo mundo tem.

Pois o sujeito, que a esta altura da festa já estava trêbado, aproxima-se do Geraldo, que também era seu conhecido de infância, e desfere-lhe o terceiro tapa do dia:

- Geraldinho, parabéns pela festa. Festa de bacana.

O empurrão no concunhado de TP não foi em razão do tapa, mas sim pelo “bacana”. Ele não sabia que depois da compra do Opala Comodoro novo do Geraldo, a cidade só o chamava de bacana. “GB”, Geraldo Bacana. Com o tombo, caiu em cima da mesa do TP, e um copo de refrigerante caiu no vestido de sua mulher, molhando-o.

As festas de hoje são bem diferentes. Tem buffet e DJ, mas não têm o sanfoneiro e as tias e vizinhos com seus inseparáveis panos de prato.

Vapo!!!

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