O Morro do Diabo (II)

Por: José Borges da Silva

Em visita ao Parque Estadual do Morro do Diabo, em meados de 2010, ouvimos boas histórias e penso que há mais uma que vale a pena compartilhar. Está relacionada à nomeação do monte que empresta o título ao parque. É uma história triste, mas que dá uma idéia do foi a colonização do Brasil. Não se trata da história oficial, mas daquela que circula no meio do povo do lugar. Consta que a região foi povoada por várias tribos indígenas, que acabaram dizimadas pelos bandeirantes. Talvez por uma espécie de vingança moral daqueles que não conviveram bem com as barbaridades que marcou a relação do colonizador com os nativos, surgiram lendas que enriquecem os episódios do passado, objetivando realçar a bravura dos nativos que, por erro dos primeiros europeus que chagaram às Américas, acabaram chamados de índios. Há várias histórias que buscam explicar a estranha homenagem que a região presta ao Diabo. Algumas são contadas pelos guias turísticos que atuam no parque. Outras podem colhidas diretamente da população local. Segundo uma destas últimas, tudo começou no tempo em que a região era dominada por índios das tribos Caiuás e Caingangues. Os fortes nativos atraíam os fazendeiros de café em expansão no Estado, que planejavam capturá-los para trabalho escravo. Foi com esse intuito que um grupo de bandeirantes desceu o rio Paranapanema até a região. Ao chegarem ao alto do morro, cuja silhueta lembra uma mesa levemente selada no meio, os desbravadores depararam com uma aldeia em que só havia mulheres, crianças e velhos. Enfurecidos com o fracasso da expedição, que buscava homens fortes, resolveram eliminar os frágeis indivíduos que encontraram. Mais tarde, quando os guerreiros retornaram, trazendo caça para os seus lares, quedaram assombrados. Não conseguiam entender tamanha brutalidade. Mas em pouco tempo se recuperaram e foram atrás do inimigo. Exímios conhecedores da floresta, facilmente alcançaram os bandeirantes e lhes armaram uma emboscada. Embora melhor armados, estes últimos não tiveram chance. Reconduzidos ao morro, foram mortos e esquartejados. Os seus corpos foram dependurados às árvores por toda a região da aldeia. Suas cabeças, espetadas em varas, foram fincadas pelos caminhos que conduziam ao topo da elevação. Em seguida, os índios apagaram os vestígios da sua aldeia e foram embora para regiões distantes. Passado algum tempo, outro grupo de bandeirantes veio em busca dos colegas desaparecidos. Mas ao chegaram ao morro só encontraram restos mortais espalhados pelas árvores e os seus pertences. Não encontraram um único vestígio que indicasse quem havia feito aquilo. Partiram intrigados com o mistério que selara a sorte daqueles aventureiros. Logo que se afastaram, caiu a noite e, com ela um temporal de proporções extraordinárias, com raios, ventos e trovoadas. Olhando para trás viram, horrorizados, que os raios que caíram nas extremidades do morro conferiam um enorme par de chifres à formação geológica, que parecia rugir na escuridão. Considerando o acontecido aos seus colegas, tiveram a explicação para a tragédia: aquele morro só podia ser a habitação do Diabo

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