Os Apaixonados por Franca

Por: Sônia Machiavelli

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No prólogo do livro Vida de Dom Quixote e Sancho Pança, o escritor Miguel de Unamuno aconselha o leitor a “viver em contínua vertigem apaixonada; pois somente os apaixonados levam a cabo obras verdadeiramente duradouras e fecundas.” Com esta frase na cabeça, e uma intuição de que são as paixões, mais que os interesses, que conduzem o mundo, tenho acompanhado o crescimento consistente do grupo Apaixonados por Franca, que já postou no FaceBook 12 mil fotos, segundo palavras de um dos administradores, Djalva Braga Filho.

No instante em que o leitor passa os olhos por aqui é provável que o número tenha crescido bastante, pois a queda vertiginosa da temperatura motivou nas últimas horas muitos francanos a postarem imagens belas e surpreendentes. Paulo Cruz capturou o momento em que nossa imponente catedral desapareceu dentro da espessa neblina que cobriu a cidade. Carlos Gomes fixou instante de pura poesia: ipê branco, profusão de flores, recorte sobre o céu acinzentado. Na véspera, entardecer de terça-feira, quando a bruma mostrava a que vinha, Márcio L. Cesário mirou outro ipê e fez foto espetacular; também buscou uma cor para pincelar os cinzas inusitados e contrapôs ao fog francano flores avermelhadas junto a folhas secas na calçada da Praça Carlos Pacheco: tudo admirável. Clovis Ludovice preferiu focar os nove graus no termômetro da Unifran. Paulo Saad Farah optou pelas luzes que se acendiam na noite do dia 23 formando lindos halos nas ruas e praças. Rafael Lourenço de Camargo e Carlos Pereira uniram-se no registro matinal de diversos espaços francanos envoltos por chuva fina, neblina espessa e graus em descenso. Junto a Carlos, Márcio, Clóvis e Rafael, outros, muitos, fizeram questão de postar aquilo que mais atraía seu olhar na cidade à qual o clima conferiu ares europeus.

Assim, fixados os momentos de um inverno atípico, as imagens foram levadas a milhares de internautas, cumprindo três de seus muitos papéis: partilhar uma emoção e um prazer estético; chamar a atenção dos que embora tenham acusado a mudança visual não fizeram fotos; provocar a curiosidade nos que aqui nascidos estão hoje espalhados pelo mundo e têm no Face a oportunidade de um contato imediato com a cidade e sua gente, sempre em transformação.

Porque as cidades são assim, vão se construindo umas sobre as outras interminavelmente, apagando um cenário para erguer outro, e se perfilando de maneiras diversas diante dos olhares das gerações que se sucedem como agentes e espectadoras do processo. Resta a memória, nosso diário enquanto vivos. Restam os documentos e as fotos, mediante os quais somos transportados ao tempo que se foi. Este conjunto de fatos memoráveis nos pertence enquanto cidadãos e desempenham parte importante na formação de nossa identidade. O que somos sem nossas lembranças, reminiscências, saudades, nostalgias? No contexto onde a cidade não primou oficialmente pela preservação de bens materiais e imateriais, os membros do Grupo Apaixonados por Franca vão fixando o presente e resgatando o pretérito. Como o fez Joel Nascimento que publicou na quinta-feira foto de parte da turma da Escola Normal Oficial de Franca (hoje EETC) reunida em dezembro de 1994 para lembrar os 50 anos de formatura; e Rosa F. Mello, que mostrou no mesmo dia aos internautas imagens de Toinzinho Beiçudo, Geraldo Pelotão, Luzia Doida, tipos populares que transitaram durante décadas por nossas ruas e praças. Fotos da Franca antiga, muitas desconhecidas até por historiadores, vêm sendo postadas em resposta à demanda dos que demonstram apreço pelo passado e sabem que, se ele não explica totalmente o presente, com certeza ajuda a compreendê-lo.

Ainda nesta semana, Marco Antônio de Carvalho postou imagens preciosas de uma Franca de 15 mil habitantes e 100 carros, das primeiras que focaram a cidade em movimento. Há veículos circulando no ritmo lento do começo do século XX; grupo de moças airosas se posicionando para a posteridade; crianças e adultos trajados com roupas domingueiras; e uma arquitetura que desapareceu por completo. Do mesmo período temos ali, postada por Joel Nascimento, carta datada de 22 de maio de 1921 onde o jovem Marcílio Diniz da Silva, em letra impecável, pede ao Capitão Acácio Pereira autorização para namorar sua filha Augusta. Menos de um século para mudanças extraordinárias na fisionomia urbana e nos costumes.

Os registros factuais, históricos, estéticos, líricos ou apenas curiosos do Apaixonados por Franca revelam que os francanos orgulham-se das origens da cidade, apreciam as singularidades que caracterizaram sua formação, enfatizam seu presente conectado aos avanços da contemporaneidade, louvam o progresso para o qual confluem principalmente as pessoas comuns com seu trabalho diário. O grupo é mais um braço a reconhecer o valor da memória e a necessidade do registro da passagem do tempo. Outros que no momento me ocorrem são as seções Álbum de Família, que substituiu Do Fundo do Baú, editadas por Lúcia Helena Maniglia Brigagão e Atalie Rodrigues Alves, respectivamente; e muitos textos de Everton de Paula, preciso na recuperação de figuras humanas e acontecimentos dos anos 60; de Chiachiri Filho, que hoje, por exemplo, fala ao leitor neste Nossas Letras de coisas francanas que existiram e desapareceram; de Luiz Cruz de Oliveira, que especialmente com Chico Franco retira do esquecimento toda uma cidade que só resiste na memória. São todos eles, conectados ou não, apaixonados por Franca. Capazes, portanto, de obras fecundas e duradouras.

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