Nas Entrelinhas

Por: Maria Luiza Salomão

RESOLVI mudar o meu caminho para o Jardim Botânico e encontrei uma linda lojinha chamada Entrelinhas ( o nome me cativou) . Uma miríade de objetos de pano na vitrine. Através do vidro, vejo tecidos em padronagens vistosas. Associo panos com aconchego e vida lenta, cuidada, aprimorada, artesanal. Uma vendedora matou minha curiosidade: ali, costumeiramente, são criados “quartos de bebê”.

Uma mãe pode preparar mundos para a chegada dos filhotes a tecer panos de carne, costura em sangue, confeccionando fantasias. Não imaginava outras entrelinhas, quando adentrei a loja.

Entreteci uma conversa patchwork com a vendedora, que pensei ser a dona da loja. Ela tem uma fala calma, voz baixa, e começa a me contar a sua triste história. Sua irmã estava passando por um superproblema: o marido dela estava com aquela doença que vai atrofiando os músculos do corpo até não conseguir engolir, respirar, enfim, um calvário lento e angustiante, para quem tem a doença e para quem está ao lado, impotente, vendo a pessoa se tornar dependente em mínimos gestos. Mas havia outro: a filha da vendedora lida com o filho, já com vinte e tantos anos, um “filho eterno”, por ser portador de uma síndrome que esqueci o nome, de tão sombria (autismo e outros distúrbios). Na vendedora o olhar triste, a doçura silenciosa, recolhida, de quem vive como pode, como consegue, me faz refletir sobre como foi curiosa minha parada, ali, e nossa conversa, repentina.

Ela me diz que borda e costura, como quem se salva. Entre a filha e a irmã, vai também se socorrendo, como deve: é divorciada. A irmã mora na Itália, e a filha se prepara para compartilhá-la com a tia. A vendedora vai morar seis meses lá, seis meses cá. Renunciou a um namorado paulista (ela adora São Paulo, capital). Como se repartir ainda mais? (ela me pergunta). Quantas vidas retalhadas, quantos retalhos em uma só história, quanta tessitura para o quarto de quantos bebês, dentro dela!

A conversa não parou aí. Quando menciono o filme “Colcha de retalhos” (Winona Ryder é a atriz-protagonista), a conversa apruma. Quase simultaneamente, nós nos lembramos de “Como água para chocolate”, e menciono meu gosto pelo tricô do qual sei apenas dois pontos: o tricô e a meia. Disse a ela que poderia fazer um tapete imenso com esses dois pontos. Rimos, porque a nossa conversa tricotaria um tapete desse tipo.

Acho que fiz uma amiga, mesmo que nunca mais a veja. Em retalhos negros e cinzentos, costurados a outros vermelhos, e azuis, e amarelos, e verdes, e xadrezes, e de bolinhas, e com flores e passarinhos, e com listras e geometrias, somos sempre capazes de fazer da vida um patchwork interessante, belo, composto em cores e em estampas. Comprei dela duas mantas, onde predomina o azul. Uma ficou no recosto do sofá, e a outra vai ser toalha de mesa. As lembranças desse encontro com a vendedora estão costuradas nas mantas, como retalhos das entrelinhas das nossas vidas. Mesmo que as linhas das nossas vidas não mais se cruzem, não nos esqueceremos dele (não tenho ideia de onde tirei tal convicção pessoal, a partir de um encontro assim fragmentário). O todo da nossa humanidade é maior do que as partes. Eu creio.

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