Benzedeiras

Por: Everton de Paula

O ritual é muito simples, assim como o cenário: a casa é pobre, o chão do quintal é de terra. A cadeira de palhinha ou madeira incerta serve de assento para quem vai ser bento. Geralmente é a criança irrequieta, ou com alguma dor de garganta e até mesmo lombriga. Senta-se desconfiada, quer segurar a mão da mãe, olha com certo medo a benzedeira que se aproxima.

Esta vem com um galhinho de arruda na mão direita. Não raramente, pita um cachimbo de barro e usa roupas parecidas com as de um espantalho. Não erra uma palavra na oração que faz, enquanto passa o raminho da planta por todo o corpo franzino da criança. Não tropeça no falar, no pedir, no clamar pela boa sorte, pela boa saúde, pela proteção dos anjos-da-guarda mais ecléticos possíveis, pelos santos fortes. E à medida que vai procedendo ao ritual simplíssimo, o raminho de arruda, inexplicavelmente, vai-se murchando aos poucos. A benzedura só termina quando a plantinha se torna insustentável em si mesma, devendo ser jogada fora, longe, ou enterrada pois talvez tenha absorvido da criança todo o mal que a afligia. Às vezes, e nem sempre é assim, a benzedeira ainda faz um sinal da cruz na testa do menino de olhos abertíssimos. Quando termina o ritual, a benzedeira abre um bocão de sono, provavelmente para expelir os maus fluidos que teria inalado. A mãe, esta, espectadora atônita e esperançosa, mãos postas uma à outra, reza uma ladainha de améns a cada frase proferida pela benzedeira. E pronto, a benzedura está feita, a criança curada, ou recuperada: terá uma história para contar mais tarde aos incrédulos colegas de escola.

Em minha vida de criança, fui benzido muitas vezes. Não sei dizer com precisão as causas pelas quais minha mãe me levava à benzedeira, que morava numa das travessas da Vila Monteiro, quando lá nada era asfalto, só poeira, e as casas simples apoiavam-se miseravelmente sonolentas umas às outras. Ao menos, nessa época, benzedeira era mulher de parcos recursos, mãos quentes, dentes horríveis e um coração de ouro. Fui benzido por raminho de arruda, folhas de erva cidreira, macinhos de hortelã mas, prestemos atenção, estas ervas eram para crianças com males pequenos. Outras ervas eram usadas, em especial sete delas: arruda, alecrim, guiné, comigo-ninguém-pode, espada de São Jorge, manjericão e a temida pimenteira. Mas aí é pra doença de espírito, ou pra cobreiro, ou pra “zipela” (erisipela), ferida na boca, peladura, mal de aflição, de medo, de ansiedade, de “encosto”... O leitor sabe lá do que se trata o “encosto”? Pode ser mal que aflige criança, mas é mais de gente grande. É influência de gente morta, de espíritos do além, de almas penadas que não deixam a pessoa sossegada, causando tristeza, cansaço, palpitação, ou ainda inveja, ciúme, paixão doentia. Nestes casos, o que resolve é a benzedura com o poder das sete ervas juntas, amarradas uma à outra com um fitilho de pano vermelho... E depois, banho com sal grosso.

As benzedeiras fazem parte da cultura popular, acho até que de origem afro. A maioria delas é de uma generosidade cativante. Por mais antiga que seja a tradição, ainda hoje tenho notícia de que as benzedeiras se encontram mais vivas do que nunca. Basta ter vocação e força de vontade. Mesmo com a medicina avançada, muitas pessoas simples recorrem a elas para os diversos tipos de cura. Sejam os chás, a reza de água benta, “benza” para dor de cabeça, quebrante, picada de inseto, entre outros.

Angélica Weiss, jornalista em formação, que cataloga livros na biblioteca central da Unisc, comenta: “Para encontrar as benzedeiras não há endereço. Basta perguntar nas ruas que logo alguém conhece ou já ouviu falar delas. Na maioria são velhas e simples. É olhando para o rosto e contando suas rugas que encontramos a idade delas. Quem acredita em benzedeira, jura que elas fazem milagres. Muitos criticam, outros pensam que é pura bobagem. Há ainda os que dizem que é ‘coisa de bruxaria’, mas ninguém se atreve a falar isso na frente delas.”

Há uma benzedeira com quem falei. Pediu-me para não citar seu nome. Benzedeira assumida com muito orgulho, parou de benzer há dez anos, pois se considerava acima da idade. “Parei porque tinha que cuidar mais de mim”, diz ela. Os ensinamentos foram passados pelo avô quando tinha apenas 10 anos. Muita nova, já sabia que nos benzimentos encontraria a cura para muitos males. “Benzo para dor de cabeça, mordida de aranha, quebrante”, explica. Ela fala pouco. As palavras e os entendimentos se transmitem pela expressão do rosto. E que rosto. Que olhar. Um olhar profundo, digno de uma benzedeira que cultivou sabedoria durante sua vida.

Continua Angélica Weiss: “Benzer para curar. Esse ritual faz parte de um imaginário popular desde tempos imemoriais. Não importa o tempo, a classe social, a religião. Para quem acredita, a fé, muitas vezes, é mais importante que a ciência ou a razão. Mesmo com a idade avançada das benzedeiras, o amor em curar é mais forte e dispensa férias. As que já se ausentam do ato de benzer tem seus motivos particulares, a maioria é devido a problema de saúde. As que continuam benzendo fazem por vontade e amor. Sempre haverá quem critique e quem simpatize. Mas isso não importa. Falem mal ou bem, elas amam o que fazem.’

Consegui registrar ao menos uma oração de benzedura contra mau olhado, inveja ou ciúme. Diz o seguinte:

‘Leva o que trouxeste!...
Deus me benza com sua santíssima Cruz!...
Deus me defenda dos maus olhos e maus olhados
e de todo o mal que me quiserem fazer...
Tu és o ferro e eu sou o aço;
tu és o demônio e eu sou o embaraço...
Padre, Filho, Espírito-Santo.’

E assim tem uma oração para terçol, outra para cobreiro, ferida na boca, dor de dente, espinhela caída, ínguas, espinha na garganta, para bem dormir, bicheira, verrugas, tempestades, temporais, trovoadas, relâmpagos e até para dívidas difíceis de serem pagas. Só não encontrei mesmo foi benzedura para corrupção. Nem as sete ervas, nem o sal grosso, nem reza brava obtiveram a façanha de quebrar a espinha dorsal desse mal que deixa nossa gente indignada, desprotegida e infeliz.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras