Manhãs Adiadas

Por: Vanessa Maranha

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O livro de contos Manhãs Adiadas, de Eltânia André, (Dobra Editorial), tem como tema basilar o estranhamento. Do “si consigo próprio”, do sertanejo na metrópole, do “sem-destino nos olhos”, da sensação de “exílio compulsório”, do “tempo tramando ausências”.

Prosa de boa lavra, a obra, que apresenta catorze contos, alguns deles muito próximos da crônica, divide-se numa primeira parte mais telúrica, de tons pastéis, mais interiorana (a autora é natural da mineira Cataguases). Num segundo momento, assume um realismo mais cortante, incisivo - urbano.

Mencione-se também as felizes escolhas nos títulos dos contos e do livro, plenos de sentidos. Na unidade da obra, a autora parece seguir um gênero que se contrapõe, dialeticamente, entre o épico narrativo e o lírico, trazendo aquilo que Hegel denomina objetividade épica no fluxo narrativo e subjetivamente lírica, o que é, em síntese, prosa poética.

O resultado final, inventivo na forma, não apresenta linearidade, nem tampouco rigidez nas técnicas narrativas; inadvertidamente, o leitor é sugado por um suspiro doloroso e interrogativo que movimenta, inclusive graficamente a página do texto; assaltado pelas palavras cruzadas da Olgamaria, personagem do conto que abre lindamente o livro, na sua sina dos pastéis e do “grito esfriado na beirada da pia”, em que abudam as funções fáticas, emotivas e conativas (com imperativos e vocativos).

Sem atalhos, nem desvios, desnuda o velho que ia aos poucos se desabitando de si mesmo, das coisas, dos outros, alguém que somente ao final do texto se autoriza à nomeação.

Cogito, ergo sum é um lamento ao desejo sufocado, a mulher que sonha ir ao Egito, mas acaba passeando pelas gôndolas do supermercado. Em Pássaros que não voam, o passareiro se despede do seu Corrupião na “trapaça que é viver”.

A solidão de Alzira, na inflexão mais conteudística, é bonito que dói, agudamente; a vida despejada nas pequenas coisas: tantas anônimas alziras nos avizinham, estão na nossa história, são um pouquinho de nós na espera mansa daquilo que não chega ou, se vem, aporta diluído e precário até que então o irremediável acontece, sem volta.

Estações, mais fragmentário e ágil, se alinhava pelas estações de metrô de São Paulo e deflagra o espanto da autora à imensidão urbana, à doença social, à impessoalidade que massacra qualquer singularidade.

Entre os finalistas deste ano do Prêmio Portugal Telecom, Manhãs Adiadas é um livro de delicadezas contemporâneas num travo de melancolia que vai se esfumando na trilha de alguma esperança possível, alguma ternura feroz. Sobretudo um olhar sensível ao que somos, sugestivo ao que podemos ou poderíamos ser.


VERDADE QUE INCOMODA

Eltânia André

Eltânia André nasceu em Cataguases (MG) e vive em São Paulo (SP), ao lado do marido, o escritor Ronaldo Cagiano.

Formada em Administração de Empresas e Psicologia, trabalha atualmente como psicóloga no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial da cidade de São Bernardo do Campo).

É autora do livro de contos Meu nome agora é Jaque (Editora Rona, BH, 2007).

Eltânia, que escreveu o livro num café próximo de sua casa, cumprindo a disciplina de se dedicar à atividade por pelos duas horas diárias, pela manhã, define Manhãs Adiadas com a frase de Lucian Freud: ‘Penso na verdade como algo mais revelador e invasivo do que algo que acalenta e acalma’. Ela completa: “creio que é isso que os personagens desse livro querem transmitir; a angústia, o que incomoda, o que escapa, eles expõem suas feridas, os delírios”.

O primeiro conto, Parábola de Olgamaria, é, segundo a autora, “a narrativa que esbarra na melancolia e foi apresentada como trabalho final da disciplina Distúrbios da oralidade, num curso de pós-graduação, concluído na USP, abordando Saúde Mental e Psicopatologia.

Alguns contos foram escritos a partir de 2007, lapidados à exaustão. Outros, como Fascínio, escreveu de um só fôlego, faltando três dias para entrega à editora. 

Serviço
Título: Manhãs Adiadas
Gênero: Conto
Direção: Eltânia André
Editora: Dobra Editorial
 

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