Contagem regressiva

Por: Janaina Leão

Deitado ali naquele banco de cimento, no meio do nada, percebeu que havia perdido tudo. Não precisava nem ter nome, não havia ninguém para pronunciá-lo, pelo menos não com afeto... Sua atitude perante a vida feriu demais os que o amavam: desistir é meio chocante quando se tem 20 e poucos anos. Chorou até o rosto arder e os lábios racharem... Tanto sal de tristeza, acaba proporcionando cortes/mutilações. Não havia mais nada açucarado, brando.

Lamentou-se pelas últimas descomposturas e tentou com todas as forças encontrar alguém em quem botar a culpa, mas não encontrou... Descobriu que era possível mentir, enganar a todos, menos a si próprio.

Estava no seu lugar de paz, dentro daquele inferno todo que se arrastava onde quer que ele fosse. Estava no lugar que imaginava merecer, no lugar que lhe causava identificação, no lugar que afinal de contas, seria o único que restaria: algum medo ou desejo o impedia de migrar.

Tanto era o amor pela vida que passou a odiá-la. Associava a isso sua impotência de, numa única existência, ter e ser tudo que desejava. Se não poderia ter tudo, ele quis o nada. Tragou de uma vez todo o veneno, porque esse sim era bem mais acessível que quaisquer licores. Sentiu o coração descompassando, a boca adormecendo e na retina vieram todas as imagens maravilhosas doutrora, tempos ternos, alegres e sem culpa. Segundos de um prazer necessário a ele, que não sabia buscar saída em caminhos mais saudáveis. Entregou-se então ao contar de folhas eternas donde jazia, donde a paz encontrada denominou-se morte e um Salgueiro amigo, compadecia num sacudir de galhos que mais lembrava um lamento.

É a droga mata... Muitas vezes em vida. Passadas algumas horas, levantou-se e partiu em busca de outra dose, de outra despedida, em outro banco cinza de cimento, contando folhas de árvores, em seus altíssimos galhos.

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