O divã: recolho do inefável

Por: Maria Luiza Salomão

Tirei uma foto do divã, anos atrás, assim como ele é hoje, coberto por uma colcha estofada amarela, de um amarelo desmaiado, com arabescos e escritos dos quais não decifro sequer uma palavra. Parece latim, e eu não aprendi latim, letras lindas, góticas. Algo sugestivo, mas indefinível.

Latim, do qual nada sei, língua morta por não existir falante, mas viva nos étimos, na raiz, na origem de algumas palavras, e nas expressões célebres, exaustivamente citadas por gente “cult”, e que encerram um mundo que temos que decifrar, aqueles, como eu, que nunca estudaram latim.

A colcha está permanentemente amassada, revelando seu uso. O design do divã tem forma curva, e o nome do móvel é, sugestivamente, “Onda”. Os pés finos de metal são aparentes, e no canto esquerdo da foto, tem uma lixeira de bambu, nem sempre perceptível para quem se deita no divã.

Uma pequena almofada, bem fina, para que seja confortável ao formato do divã, que permite um alinhamento da coluna, um apoio à lombar, permite a elevação dos pés. Uma almofada fina, cáqui, permite o encosto confortável para a cabeça: um “futon”; e almofada de couro preto para apoio dos pés: alguns que se deitam no divã receiam sujar a colcha.

A parede do consultório está revestida de papel, em desenho cinza e branco azulado, algo abstratamente inacabado, e o tapete, capturado pela câmera, mostra sua trama em corda, o material é de junco, uma fibra natural, em cor amarronzada, mas na foto parece revelar o material em madeira clara.

A impressão imediata da foto está no divã vazio, nas presenças ausentes, nos amassados da colcha. Coloquei a foto em uma arca pequena, que serve de aparador, em posição antagônica à que me sento, ao lado do divã. Deitado no divã, o paciente vê a foto a uma distância de pouco mais de um metro e meio. Alguns parecem não registrar a presença da foto, e outros ignoram o próprio divã. A distância entre alguns pacientes e o divã é incomensurável: do tamanho de suas fantasias, ou até, misteriosamente dizendo, das suas não-fantasias (o divã tem que ser criado em suas mentes).

Tenho seis divãs memoráveis. Três deles eu experimentei, como paciente, divãs dos meus ex- analistas, ao longo de 20 anos. Um divã (branco, e depois encapado de preto) me acompanhou por quase todo esse tempo, desde o início do meu trabalho clínico. O segundo foi adquirido depois de uma longa trilha: desde que me apossei do título de psicanalista (não quero explicar a longa e penosa formação a que se submete um psicanalista; leigos não se interessariam, eu creio). Meu primeiro divã foi adquirido com muita economia, ao montar meu primeiro consultório, em Ribeirão Preto.

O atual, a “Onda”, comprei ao final da minha formação, sofrida, para me tornar psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, um tipo de rito de passagem. Ele tem quase dez anos, os pacientes me asseguram que é confortável. De vez em quando eu o experimento para ver se ele não envelheceu e não merece novo ritual de passagem...

Conheci o divã de Freud, em São Paulo, 2000, em uma grande exposição no MASP. Eu o vi de perto, há poucos meses, em Londres. O divã de Freud deixa o paciente praticamente sentado, entre almofadas, atapetado (toque pessoal dele), em tons vermelhos, com temas mitológicos, ambiente cercado de tapetes, livros e esculturas antigas.

Há uma mitologia especial, para quem usa, e também para quem não usa, o divã. Berço de sonhos, esperanças, tessitura de verdades difíceis, quase inalcançáveis, costuradas em suores de afetos. Campa para anseios impossíveis, lutos intermináveis pelo que não volta ou nunca virá. Divã-espelho para o que dificilmente se reconhece, por medo, negação ou mesmo por situação traumática embruscada, que patina sem porvir...

Ninguém esquece o primeiro divã, e nem o último (e nem os do meio...).

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