Menininha Daija

Por: Débora Menegoti

Adoro a fibra, a coragem que vibra naquela cor e marra. Perplexa ante a sublime imagem da irmãzinha, no balanço do parquinho de madeira dessa cidadezinha esquecida ,com a bebezinha no colo, negrinha com os pezinhos balançando sem tocarem o chão. Me olhava com uma ponta de receio, de espanto, bronca e uma pitada de asco; até que eu sorri. As negrinhas de jabuticaba, eu damasco.

Veio, carregando a irmãzinha a tiracolo (que era um terço de si mesma, nem um metro e meio de gente) , me presentear com aquele sorriso largo e engraçadinho pela falta de um pré molar.

Duas bonequinhas, uma mini da outra, princesinhas de ébano com suas trancinhas carapinhas. A maior em seus doze anos no máximo, levando a pitica com uns seis meses para se aventurarem agora no escorregador. E a quase um segundo do chão já abria novamente mais largo e generoso, aquele sorriso branquíssimo!

Vieram beber da minha garrafinha d’água com uma intimidade natural. E sem que eu saiba bem o porquê toco com a pontinha de meu dedo indicador na nuca da não mais a menina maiorzinha, mas que agora: Daija.

Grandes goles... Bebe-me... Sinto-me engolida junto à água, vou inteiramente escorregando no pequenino túnel escuro goela a baixo. Erro o estômago vago e o vislumbro quase em síncope o ventre. Volto ao peito em exames vãos, volto a mim. Recupero a consciência e vejo as mãozinhas me procurando em toques suaves, quase por engano. Meus braços já as envolvem, sou um projeto de casca abraçando uma brasinha em seu fogo fátuo, em sua sublime beleza e angústia inocente de ônix. As jabuticabas que se apertam deixam ao sol ardente cair a primeira gota na areia quente, como se a lágrima afagasse a pele, o rostinho desse anjo negro ao cubo com seu brinquedo novo na barriguinha ainda tão infantil.

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