O que chega para perturbar

Por: Sônia Machiavelli

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Tinha lido comentários sobre O Mestre, antes mesmo do lançamento do filme no Brasil, o que aconteceu no começo deste ano. Depois amigos assistiram a ele e suas opiniões diversas, por vezes contraditórias entre si, me surpreenderam. Quando Regina Bertelli Figueiredo o sugeriu no grupo do FB “Cinema no Face”, achei que estava na hora de buscá-lo na locadora. Sabia por alto que tinha a ver com Cientologia, em alguns países religião legalmente reconhecida. Conjunto de crenças e práticas controversas, o movimento tem no ator Tom Cruise um ilustre defensor e divulgador.

Seu criador, L. Ron Hubbard (1911-1986), que começou escrevendo sobre ficção científica, concebeu a Cientologia como ampliação de um sistema de autoajuda que colocara em prática antes de 1950, no pós-guerra, mesclado à crença de que almas viveram em outros planetas antes de migrarem para a Terra, trazendo de distantes galáxias confusas reminiscências. Some-se a isso o resgate de vidas passadas, técnicas de hipnose, refutação da psiquiatria, promessa de superação de doenças e de traumas pela nomeação e repetição de sua lembrança e se terá um rápido perfil do sistema.

No filme do diretor Paul Thomas Anderson não aparece a palavra Cientologia, mas outra, com artigo definido e muitas semelhanças de conteúdo, A Causa, um tipo de organização hierárquica e bem estruturada. Seu líder, o personagem Lancaster Dodd (Philip Seymor Hoffman), misto de guru e filósofo, é claramente inspirado em Hubbard. Juntaposto a ele, em dinâmica sofisticada, o problemático Freddie Quell (Joaquín Phoenix), homem destruído pela guerra. Em paralelo, e não em formação de triângulo, emerge aos poucos a mulher de Dodd, Peggy (Amy Adams), de personalidade autoritária e manipuladora. Um pouco abaixo desta linha, transitam o filho mais velho de Dodd (Pemmons) e um detetive de pensamento cartesiano (Warshofsky) que contesta ideias e ações do líder.

A história tem início com a câmera mostrando Quell em contexto de risco depois de uma bebedeira. Pouco depois, em situação de fuga, entrando num barco de luxo segundos antes deste zarpar. Só então se dá a primeira aparição de Dodd, em rápida tomada de seus pés subindo à proa. Neste barco, perfeita metáfora para o transitório e para o caráter de viagem que é a vida humana, dois homens tão diferentes, e por isso mesmo passíveis de encontro transformador, de repente se tornam próximos. O Mestre, como Dodd é chamado, vê em Quell mais que um futuro discípulo. Ele se lhe afigura um tipo de cobaia necessária para testar sua teoria sobre alienígenas, fluxo de consciência, recuperação de vidas passadas, eliminação de perturbações psíquicas, autoajuda e outros fenômenos. Esta é a primeira parte do filme, se o entendermos como narrativa clássica, com um início em relativo equilíbrio, seguido de um transtorno e retomado por um final diferente do começo. Abre-se e fecha-se com Quells, o elemento desestabilizador do grupo que segue Dodd. Por duas razões Quells assume este papel de ser que chega para perturbar uma ordem previamente estabelecida. Primeiro por reverter, a partir de certo momento, a relação entre dominado e dominador. Segundo porque Peggy não aceita o estranho no seu ninho onde autoridade, segurança e autocontrole formam uma tríade que ela não quer ver alterada.

Impressionam pela energia e incomodam pelo desconforto as cenas iniciais em que o Mestre introduz Quells nos primeiros passos do culto. É especialmente emblemática aquela em que ambos, presos em celas contíguas, respondem ao mesmo estímulo de formas opostas. Imagens impactantes, diálogos bem construídos, interpretações magníficas levam o espectador a um estado de quase hipnose: torna-se custoso desviar o olhar da tela em muitos momentos. Contado de forma fragmentada, com imagens que só são possíveis graças à montagem cuidadosa e sutil, o filme produz impressões que variam do estranhamento à inflexão. Tudo é possível e ao mesmo tempo não é. Este o grande lance do filme, que não oferece concessão ao julgamento moral e nos convida a pensar mais em comportamentos humanos que em religião.

Na linha da neutralidade de quem quer contar uma história sem interferência do olhar pessoal, o diretor alcança alto patamar de realização, onde a arte paira sobranceira, respondendo àquilo que Ítalo Calvino chamou de clássico: “a obra que nunca termina de dizer aquilo que tem para evocar.” Assim saí do filme O Mestre, me interrogando sobre tudo o que me tinha sido oferecido em termos de imagens e diálogos. Há muito sobre o que refletir a respeito deste filme que não agrada a quem busca entretenimento. Ele se propõe a ser bem mais que isso e o consegue com grandes méritos


AS MARCAS DO AUTOR

Paul Thomas Anderson

A paixão pelo cinema manifestou-se cedo na vida deste norte-americano nascido em 1970 na Califórnia. Dos sete irmãos foi o único que não completou estudos formais. Bem próximo pois de Quentin Tarantino e Kevin Smith que aprenderam o ofício de direção não em escolas de cinema mas assistindo a centenas de filmes.

Aos 30 anos PTA, como gosta de ser chamado, já havia recebido um Urso de Ouro no Festival de Berlim por Magnólia (1998) e duas indicações ao Oscar por Boogie Nights (1999). Oito anos depois, Sangue Novo (2007) garantiu-lhe oito indicações ao mesmo prêmio e o tornou conhecido como “o maior cineasta americano de sua geração”. Seus temas miram as relações familiares, a natureza do amor, a presença do divino na vida humana e o papel da mídia no mundo contemporâneo. O estilo sofisticado diferencia sua obra.

Sem ter que provar competência, decidiu-se em 2012 por entrar “no terreno pantanoso da Cientologia”, como avaliaram os críticos de cinema presentes ao lançamento no último Festival de Veneza. Por ser um diretor/roteirista reconhecido pelo gosto entranhado por detalhes e pelos subtextos, acreditava-se que ele destrincharia a religião que tem seu núcleo marqueteiro implantado em Hollywood. PTA se queixou depois, dizendo que a última coisa que queria fazer era um filme provocador. Mas fez e provocou. Tanto que Tom Cruise, adepto e divulgador, astro de um de seus filmes e até então amigo, afastou-se um pouco dele depois de O Mestre.

Entre as singularidades do cineasta figura o costume de raspar a cabeça no final de cada produção.

Serviço
Título: O Mestre
Diretor: Paul Thomas Anderson
Ano: 2013
Onde: nas locadoras

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