Caldo de pimenta

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Usado para temperar quitutes feitos por quem entende e tem o dom; aqueles que dominam a arte culinária e conseguem diversificar os pratos, em mil delicias criativas e com sabores inusitados; os que sabem dosar, com perfeição, os condimentos nos alimentos, sem deixar, por exemplo, o gosto de pimenta sobressair ao do alimento. Estes artistas sabem utilizar um caldo de pimenta na medida certa, mas não é sobre eles que quero falar e, sim, de um caldo de pimenta Cumari, em conserva, vermelho, grosso que escorreu de um litro quebrado, jogado que fora, com força e ira, no ladrilho daquela cozinha. A ira, um dos quatro gigantes da alma, desestabilizava a união daquele par que, iludidos por uma paixão fulminante, pensavam ter encontrado o companheiro certo. Consideravam-se predestinados, almas gêmeas, unidos para sempre. Mas, a convivência próxima, a rotina, as palavras incertas contribuem para que as verdadeiras personalidades despontem, tornando-se espinhos num relacionamento, que como nas rosas, também, ferem e sangram.

Conforme o tempo ia passando, as desavenças tornavam-se mais frequentes e o nível de agressividade também. Os motivos eram insignificantes, mas o temperamento exaltado dele não tolerava nada. Não gostava de dialogar, era uma pessoa de ação, o que o levava a atitudes como esta. No calor da discussão, vencido em seus argumentos, sentindo-se o mais vil dos homens, impulsivamente, pegou o litro de pimenta, em cima da pia e atirou-o violentamente ao chão em direção à porta. Ouviu-se um baque surdo seguido de um som fino de vidros se quebrando. O litro se espatifou, espalhando cacos de vidro por todos os lados. Uma parte permaneceu inteira de onde escorria o caldo da pimenta, sangrando o piso, formando arabescos rubros e exalando um cheiro acre e picante. As minúsculas pimentas vermelhas pigmentaram o piso e esparramaram-se por toda a cozinha e parte da varanda. Com esta ação, romperam-se os últimos liames que ainda uniam os dois. O impacto que aquele ato causou ressoou na casa toda e quem mais o assistiu sentiu-se incomodado. A comoção era tanta que a única resposta foi o silêncio.

Este comportamento violento aplacou a sua ira. Mais tarde, ele mesmo iniciara a limpeza, porque ela deixara o lar e se abrigara em casa de uma amiga. Não houve reconciliação. Um gesto de ódio venceu uma grande paixão.

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