As lições de Francisco

Por: José Borges da Silva

A diversidade é a característica maior da Terra. Embora o homem seja apenas um dos elementos de um complexo sistema que possibilita a vida no planeta, infelizmente parece não conviver bem com essa heterogeneidade. Prova disso? Analise as espécies que o homem já fez desaparecer e aquelas que no momento presente correm esse risco. Mas, desejar respeito a outras espécies é pretensão ingênua, quando sabemos que não há respeito nem mesmo para com as pequenas diferenças que existem entre os da nossa espécie. Não é preciso invocar diferença de raça, de cor ou mesmo de status social. Na mesma classe, não conseguimos tratamento isonômico entre os sexos, ou entre pessoas com diferenças de idade. E por incrível que pareça, o Papa Francisco ocupou a maior parte do tempo de sua visita para nos ensinar sobre isso.

Mas a propósito, confesso que durante a visita fiquei enjoado de ver, ler e ouvir o noticiário. Só se falava do Papa. Até nos programas de futebol da hora do almoço, lá estava Sua Santidade acenando à multidão sem fim. E muitas vezes deixando de cabelos em pé o Prefeito e o Governador do Rio de Janeiro, com seus atos de indisciplina, ao baixar os vidros do veículo, ao aceitar presentes e até tomar chimarrão na rua ou ao caminhar entre o povo. Os discursos, então, pareciam sempre a mesma coisa. Prometi que não veria mais TV e nem olharia as páginas dos jornais tratando da ilustre visita. Mas, talvez por algum desígnio que não pude identificar, acabei vendo as entrevistas que sua Santidade concedeu aos jornalistas. E confesso que fiquei muitíssimo impressionado com a sua franqueza. Por incrível que pareça, acabei tendo uma lição ouvindo o óbvio. O óbvio que acreditamos saber bem e de que ninguém precisa nos falar. Coisas como falar a verdade, falar com clareza, enfrentar os problemas , não sofismar. Enfim, quando vi o Papa cercado de repórteres cheguei a temer, acreditando que ele ficaria desconsertado, porque repórteres são especialistas em colocar autoridades na parede. Vemos isso todos os dias por aqui. Acostumado com as autoridades políticas, que sempre têm algo a esconder, fiquei preocupado. Por isso quando surgiram perguntas sobre os problemas do Banco do Vaticano, sobre as divergências internas na Igreja, sobre a homossexualidade, parei pra ouvir. E ouvi com a maior clareza do mundo as respostas dadas para todas as perguntas, ordenadas de forma direta, branda e educada. E tudo me pareceu óbvio demais. A cada resposta do Pontífice, o assunto era encerrado e não havia mais como continuar no tema. Parece até que foram os repórteres é que ficaram meio desconcertados com tamanha franqueza e honestidade. E a lição do óbvio que ficou é a de que não há como desconsertar quem fala a verdade. A resposta à pergunta sobre como a Igreja deve encarar a homossexualidade causou perplexidade: “se uma pessoa gay procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, declarou Francisco, com os olhos nos olhos da jornalista boquiaberta. Dizer mais o quê, sobre o assunto? Na verdade foi emocionante a simplicidade da resposta. Para Francisco parece que os problemas da humanidade dependem de ações simples, de coisas óbvias demais para serem resolvidos. E ando desconfiando de haver outra lição sub-reptícia em tudo isso: não parece que conforme o homem se sofistica, lhe escapa o óbvio? Bem, mas isso também já é obviedade demais, convenhamos...

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