Roupa suja se lava na rua

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Olhos semicerrados, divago à procura de assunto para uma crônica, enquanto aguardo minha vez de ser atendido no consultório médico. A chegada de duas mulheres sopra o devaneio que se desfaz.

As rugas da mais velha dizem que ela já viveu mais de setenta anos, ao passo que a filha (sabemo-lo todos os presentes alguns minutos depois) perambula pela casa dos cinquenta. E é a filha que se locomove com extrema dificuldade, devido à sua extrema obesidade.

Depois de extremo esforço, a mulher senta-se a meu lado, em cadeira que parece capaz de acomodar apenas metade de seu peso. Além disso complicador a mais o assento é dotado de dois braços laterais, metálicos. Ficarão, certamente, deformados após acolherem o desproporcional volume.

Cumprimento as mulheres, a mais nova retribui a saudação e emenda:

- Será que vai demorar muito? Hoje é dia de fazer carne de panela, é demorado. Claro que o senhor não sabe essas coisas, garanto que o senhor nem chega perto do fogão. Mas fazer carne de panela, ah! que trabalhão que dá...

E, durante quarenta minutos não parou de falar. Sua voz professoral informa aos presentes, inclusive aos meio surdos, como se prepara uma verdadeira carne de panela. Soubemos, em seguida, que ela mesma se incumbe da seleção das carnes de cada dia da semana. Carne de panela só nas quintas-feiras. Frango, só aos domingos, dia da macarronada e de um bom vinho.

Sou salvo pelo chamado da atendente que me encaminha à sala do médico que me dispensa dez minutos depois. Ao sair, olho de relance para a mulher que continua sua conferência a respeito de culinária. Percebo que a platéia recebe a sobremesa.

- Na segunda-feira, eu faço pudim de pão. Vocês sabem fazer? É muito difícil...

Saio do consultório, vou até o ponto de ônibus, embarco.

Acho que a viagem de ônibus me deixa indisposto, estou com o estômago embrulhando. Sinto náuseas.

Acho que foi o ônibus. Aquele monte de brecadas bruscas, os solavancos...

Dispenso o almoço.

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