Beber a aliança

Por: Marcos Cason

Beber uma aliança. Como assim? Tomá-la com água como um comprimido?

Não foi isto que aconteceu com um colega há muitos anos numa praia do litoral paulista. Ele terminara o noivado a três meses do casório. Como havia uma excursão para o litoral no primeiro final de semana pós-separação, ele não titubeou em aceitar uma vaga que apareceu no ônibus da viagem.

Levara a aliança do noivado, não mais na mão direita, mas na carteira, na repartição de moedas. Sábado de manhãzinha, lá estava nosso personagem no quiosque em frente ao hotel em que se hospedaram. Acompanhava-o, um colega solteirão, que já passava dos quarenta, e nunca quisera saber de compromisso sério. Queria beber muito para esquecer o acontecido. Tirou a carteira para pagar a primeira latinha de cerveja do dia. Aí veio o estalo. Sacou a aliança, aquela mesma da falecida, e propôs ao dono uma troca pelas bebidas e comidas daquele fim de semana. O proprietário pergunta o valor do acessório. O colega havia dito quanto havia pagado, mas solicitou que fizesse uma cotação com alguém do ramo, caso conhecesse. Combinaram que à tarde haveria uma contra oferta e enquanto isso podia beber a vontade.

Beirava seis horas, quando foi chamado pelo comerciante para a negociação. As latinhas consumidas eram contadas através dos lacres das embalagens que enfeitavam sua corrente no pescoço. Estava bancando também o consumo do solteirão e outros colegas que souberam da proposta.

O comerciante ofereceu um valor pouco abaixo do que o colega havia pago, um ano antes numa joalheria conceituada de sua cidade. A negociação durou menos que cinco minutos, e fecharam o valor exatamente vinte por cento menos que o valor original. Rapidamente, sem ajuda de calculadora, nosso personagem calculou que tinha direito a mais de duzentas unidades da bendita ceva. Como o negocio foi fechado, e não conseguiria beber tudo que tinha direito, distribuiu para todos da excursão, se tornando assim o sujeito mais popular do ônibus.

Fez apenas um pedido no regresso para casa: que ninguém delatasse o ocorrido para que a falecida não soubesse. Pedido feito, pedido que o amigo solitário não atenderia.

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