Correio

Por: Maria Luiza Salomão

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Será que correio vem da palavra correr? Será que o mensageiro, aquele de outrora, que levava mensagens a pé ou a cavalo, de um para outro rei, atravessando reinos e, portanto, enfrentava chuva e sol, bichos e frio, toda sorte de escolhos, porque corria, corria, corria e, de tanto correr, sua ação passou a ser nomeada - correio?

Palavras são correios. Vêm das entranhas, escapam muitas vezes (mas não sempre) do coração; são inventadas, criadas, elas nos servem, mas também atrapalham; trapaceiam, seduzem, trocam gato por lebre, matam perguntas e a curiosidade, destroem crenças; e também constroem castelos, pontes levadiças, pavimentam avenidas, estradas, viadutos de entendimento; e favorecem sentimentos, fazem florescer amizades, amores; e também suscitam inimizades, assopram maldades; e sussurradas discretamente, e se doces e delicadas, invocam ternura, consolam dores do corpo e da alma.

Palavras são correios. Voam livres, de boca a boca, escalam fortalezas; e também se estatelam no chão; e explodem no ar, atingidas por palavras-foguetes rastreadores; e trincam como frágeis cristais; e chocam-se com portões cerrados de ódio, de certezas, de dogmas inexpugnáveis.

Palavras são correios. Elas se querem velozes, ferozes; domadas; multiplicadas como bactérias, como vírus; como formiguinhas e abelhas industriosas; brotam do chão; rodopiam como painas no ar pela silenciosa música dos ventos; portam uma chama invisível, na surpresa da primeira vez que vêm ao mundo, e carbonizam-se, viram cinzas, e são olvidadas; e são ribeiras, ribeirões, rios, e deságuam, desmaiam, e secam de vez.

Palavras são correios. São sujeitas às estações de Humor, são feitas de ar, de fogo, de terra e areia, de água, de ar. Pedem correspondência, querem ser ouvidas, lidas, fixadas, transportadas, transferidas, publicadas, inscritas no coração, tornadas carne e sangue de quem as ouvir e ler. Expulsas em bafo de dragão, caindo feito chuva criadeira, moldadas pelo paciente oleiro, incensadas em cantos. Palavras têm destino, destinatário. Por vezes aparecem órfãs, anônimas, desconhecem a sua origem; e são adotadas; e metamorfoseiam-se em ossos e músculos alheios.

Palavras são correios. Quem correrá a escutá-las? Quem correrá a escrevê-las? Quem correrá a inscrevê-las no coração?

Palavras são correios. Quero ser eu a destinatária de todas as palavras que consigo recolher, escolher, que alcanço filtrar, e que devo e preciso ouvir e ler, aquelas que correram a mim das ruas, dos tempos antigos e modernos, dos tempos de hoje; das montanhas, dos mares, dos desertos, das cavernas, dos livros; das pessoas que conheci e das que jamais conhecerei. Das que julgaram que eu não ouviria, nem leria, algum dia.

Meu anseio é que o correio me traga cartas de quem nunca escreveu uma. Nenhuma. Mas que, um dia, esse dia, hoje, agora, essa pessoa que não conheço me escreve, e, se não pedir muito, me inscreve.

O que será isso que transcrevo, transleio, que me insufla feito sopro, que me queima, que me molda em barro e areia, que me dissolve, e não sei se escrita ou devaneio, e me faz de papel, e me trespassa, na corrente de um anjo corredor?

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