Maritacas

Por: Eny Miranda

Guardava algumas peças de roupas no armário quando ela, ar entre severo e ansioso, chegou, olhos muito verdes e muito abertos, dedo indicador sobre os lábios cerrados, pedindo-me silêncio.

- O que foi? Volto a cabeça, camiseta nas mãos, movimento congelado a meio caminho da gaveta.

- Psssssss... não faz barulho, senão eles fogem!

E baixinho:

- Vovó, que passarinhos LINDOS! (aqui, a consoante líquida é derramada sobre I e N, que se prolongam e se acentuam com o fechar dos olhos e o franzir da testa, como se neles residisse toda a força da beleza que a deslumbra desde há poucos instantes). São LINDOS! - repete, juntando as mãos sobre a boca e abrindo ainda mais aqueles olhos, eles, sim, merecedores de exclamações.

- Apareceram no buraquinho do telhado, explica. Garanto que você nunca viu coisinha tão fofa, vovó. Vem!

E me puxa pela mão, levando-me até a varanda.

Olho para cima, seguindo o caminho aberto por seu olhar. No pequeno vão sob uma das elevações do telhado que ondula o beiral da casa, uma cabecinha colorida se projeta e se inclina, a nos observar.

- É uma maritaca, uma cocotinha, Júlia. Deve estar fazendo ninho no telhado. Conseguiu romper a tela e entrar no forro, meu Deus! Com certeza vai roer os fios e fazer uma senhora sujeira por lá.

Como se me ouvisse e entendesse o que eu dizia, outra pequena maritaca surge, na mesma “janelinha”, a solidarizar-se com a primeira, provavelmente ofendida com minhas acusações.

- Maritaca? Ah, não mesmo! Nunca vi passarinhos iguais a esses, vovó. Olha só quantas cores!

Na verdade, eu também nunca vira maritacas tão coloridas, pequenas e graciosas. Contudo, eram maritacas. Meus registros ornitológicos (parcos, é certo) e meu instinto de conservação doméstica me garantiam: eram maritacas, o que foi imediatamente corroborado pelos sons inconfundíveis que começaram a emitir.

Depois da saída, lenta e ressabiada, de seu esconderijo, como coloridas romãs amadurecidas entre folhas, alçam voo, saudando ruidosamente a liberdade. A cabeça em tons de verde, ouro e coral; o peitinho amarelo; as asas, afeitas a longos percursos, deixando escapar um vermelho brilhante sob o verde intenso; o bico recurvado, e os olhos vivíssimos, tudo isso me reafirma: são, sim, maritacas, embora, devo admitir, as mais encantadoras (e, possivelmente, não menos predadoras) que já estiveram à disposição de meus olhos, em simples e admirável demonstração do que, sem rígidos preceitos, sem pedir licença e sem constrangimentos, simplesmente é.

Então, nos confins do azul, surge um bando de outras maritacas a que logo as duas se incorporam, e voam todas em nossa direção. Pousam lado a lado no fio de telefone próximo à varanda, confabulam e imediatamente depois se lançam ao espaço aberto.

De repente, pinta-se na tarde uma tela que enche os olhos de luz e leveza; de vida, movimento e barulhenta alegria.

O espetáculo, banal e maravilhoso, durou, como soe durar na vida o que é banal e maravilhoso, l’espace d’un matin.

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