O sonho

Por: Everton de Paula

-Bom-dia, benzinho disse Nivaldo, com a cabeça ainda enterrada no travesseiro.

- Quem é Débora? perguntou a mulher, em tom cavernoso e ameaçador.

Ora, sabemos que mais de um milhão de anos de evolução deram aos homens casados um sexto sentido quando a mulher usa esse tipo de tom de voz. Aprenderam quando devem ser completamente sinceros, respondendo a todas as perguntas plenamente, sem rodeios, sem reservas, sem mentiras. Mulher que faz pergunta direta, com poucas palavras, às seis e meia da manhã, nesse tom, é porque já sabe de muita coisa. Portanto, “vamos responder com sinceridade”:

- Não conheço nenhuma Débora, -disse Nivaldo.

- Ora, eu sei muito bem que você não conhece nenhuma Débora disse Ângela, a esposa, apertando com força o botão do alarme do despertador. Mas sonhei que você tinha me abandonado e abandonado as crianças por uma tal de Débora. Há horas que estou acordada, ficando cada vez mais furiosa.

- Garota boba Nivaldo murmurou sonolento, aconchegando-se ainda mais nas cobertas.

Ângela afastou a roupa de cama com muito mais força do que as circunstâncias exigiam e se levantou.

- Foi só um sonho lembrou-lhe o marido, esperando recuperar-se totalmente da sonolência. Estou aqui com você e nossos filhos. Não vou embora. Nunca, nunca, nunca.

A porta do banheiro bateu e o pobre do Nivaldo adormeceu de novo. De repente, uma toalha molhada aterrissou no seu rosto, com força.

- Desculpe, amor, eu estava querendo acertar na cesta de roupa suja disse Ângela. Em todo caso, você e Débora estavam morando num desses condomínios de luxo...

- Que loucura! A pensão alimentar acabaria comigo. Eu não conseguiria nem morar debaixo de uma ponte se deixasse vocês. Coisa que eu não pretendo fazer.

- Débora é médica continuou a mulher, num tom mordaz -, com fama internacional. É podre de rica.

- Escute, sei que os sonhos por vezes podem parecer bem realistas disse o marido, tentando acalmá-la. Mas você é a mulher dos meus sonhos.

- Quer saber o que foi que doeu mesmo? perguntou ela, sem lhe dar a menor atenção. As crianças foram passar um fim de semana lá e Débora fez panquecas em forma de ursinho. Com olhinhos de passas. As crianças passaram dias falando nisso. Também me contaram que ela ficou horas fazendo massagem nos seus ombros continuou Ângela, num tom sombrio Ela às vezes se sentava nos seus pés naquele tapete branco impecável, rindo de toda bobagem que você dizia. Oh, droga, o seu relógio de pulso caiu sem querer na privada. Desculpe, amor.

- Ângela, eu nunca poderia amar uma médica; elas são egocêntricas e egoístas.

- Débora trabalha para os pobres disse Ângela. O presidente lhe deu uma placa. Lá estava ela na TV dizendo: “Outros merecem isto muito mais que eu.” Quase vomitei. Ah, olha aqui o seu tênis que você estava procurando. Pegue aí... Oh, desculpe, joguei com muita força? Bateu na sua cabeça? Desculpe, amor... Você está bem?

O roxo que foi se formando sob um dos olhos de Nivaldo provavelmente iria aparecer como um soco, mais tarde no trabalho.

- Acho que você está sendo um pouco severa demais com a Débora disse Nivaldo. Ela parece ser uma pessoa legal.

Ângela, aqui, destemperou de vez o humor:

- Escute aqui, ela é uma peste destruidora de lares, e se você algum dia sequer olhar para ela de novo, vai precisar mais do que um cirurgião de fama mundial para juntar os seus pedaços!

Mais tarde, naquele dia, Nivaldo mandou umas flores para a mulher. A Ângela, é claro. Foi só um começo. Quando alguém como Débora entra em sua vida, é preciso tempo para acertar as coisas.

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