Fitas brancas e tempos sombrios

Por: Sônia Machiavelli

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Duas quedas fatídicas e emblemáticas abrem o filme A Fita Branca, do premiado diretor austríaco Michael Haneke. Um médico é vítima de acidente violento ao voltar para casa a cavalo: o animal tropeça em quase invisível fio de arame esticado entre duas árvores. Uma camponesa morre quando o piso de madeira do sótão onde trabalhava desaba, no que parece ter sido um atentado. A partir daí uma sucessão de fatos atrozes mantém tensos os moradores da aldeia alemã onde vive pequena população que trabalha nas terras de uma família da nobreza. O filho do barão desaparece durante a festa de celebração da colheita e é encontrado horas depois num bosque, espancado selvagemente, amarrado a uma árvore. Outra criança, que apresenta problemas mentais, filha da parteira local, sofre violência maior dias depois. Para fechar aquele verão de 1913, o celeiro da comunidade rural pega fogo. Agastado pela falta de pistas que permitiriam descobrir os autores dos crimes, o barão vai à igreja onde predica um pastor luterano de reconhecida austeridade e diz: “ se não descobrirmos a verdade, nossa comunidade não mais conhecerá a paz.” Parece profético. Também é sintomático, conforme se verá com o andar da história.

Construída sobre o eixo do terror, a narrativa tem na dúvida outro elemento perturbador. Quem conta a história é a voz em off do velho professor que dera aulas de canto coral às crianças do lugar naquele ano, às vésperas da eclosão da Primeira Guerra. Seu discurso é repleto de registros que ficam no espaço indefinido das incertezas. Embora desconfiando das crianças e adolescentes, mudos e aprisionados no universo esclerosado de suas famílias, em nenhum momento ele encontra elementos concretos que lhe permitam apontar culpados. A história que ele nos reconta em retrospecto avulta em importância tanto pelo que mantém encoberto até o fim, como pelo que desvela de forma concreta e assustadora em relação à presença do mal.

Assim, se o discurso do professor narrador é dúbio no que concerne a nomear criminosos, a narrativa é explícita em mostrar os casos de violência dos moradores adultos da aldeia (o barão, o pastor, o médico, o administrador). Seja contra as mulheres com quem se relacionam de forma autoritária e não raro feroz; seja contra as crianças a quem, como pais, deveriam proteger, mas de quem se tornam algozes no exercício de um terror tanto mais psicológico que físico. Egoístas, arbitrários, neuróticos, perversos, um deles claramente abusador sexual da própria filha, estes homens empregam sistematicamente a violência para intimidar e manter autoridade, hierarquia, status quo, ideologia. Ícone máximo neste sistema de imposição de ideias, crenças e modo de viver, o pastor aplica castigos humilhantes aos filhos: um deles deve dormir com mãos amarradas para não se masturbar; outros dois são obrigados a usar no braço fita branca que os marca como seres que perderam a pureza, caíram em pecado e necessitam se penitenciar publicamente em busca de remissão.

Um sociólogo alemão, Wolfgang Sofsky, citado pelo diretor do filme, diz que “a violência talvez seja a consequência de uma cultura orientada para a transcendência do ser”. Mais assertivos são os que sustentam em muitos idiomas ditado antiquíssimo, cravado pela sabedoria popular: “violência gera violência.” Críticos renomados viram no filme a construção das estruturas de dominação que desaguariam no nazismo, com seu terror e sua capacidade de silenciar uma nação inteira, imobilizada frente a crueldades inominadas contra o ser humano, como foi o holocausto. Chama a atenção o retrato de duas gerações que não se comunicam, daí advindo um vácuo que desorienta e abisma. Em todo o filme não há um único diálogo verdadeiro, amoroso, acolhedor ou minimamente gentil entre pais e filhos. Os que ocorrem com esta coloração de afetos e trocas são os do professor e sua namorada. Entende-se bem a razão: eles são estrangeiros, não pertencem àquela comunidade, ali chegaram apenas para trabalhar, procedem de mundos diversos daquele. E por isso o olhar do professor tenta mostrar ao pastor o que viu; por isso ele quer resgatar décadas depois o passado para tentar entender o que aconteceu.

Obra aberta, o filme não tem um epílogo que nos apazigue. Ao contrário, suas imagens instigam, nos forçam a pensar neste passado claustrofóbico, cruel, sem traço de alegria, onde a fita branca sinaliza a inocência perdida para sempre.

Resta dizer que a fotografia de Christian Berger nos apresenta a um mundo em preto e branco, assombrado por céu lívido que ameaça desabar a todo momento. Nunca poderia ser contada em cores esta história, naturalmente.


PERFIL QUESTIONADOR

Michael Haneke

Nascido em março de 1942 em Munique, Michael Haneke é um diretor de cinema que fez poucos mas excelentes filmes, todos com a marca autoral do incômodo.Estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena e começou sua carreira trabalhando para a televisão em 1974. Também fez teatro. Sua estreia no cinema deu- se em 1989 com O Sétimo Continente, que alimentou polêmica na Alemanha pelo assunto: uma família que comete suicídio.

Tornou-se conhecido dos brasileiros por A Professora de Piano, adaptação do romance La pianiste, da escritora Elfriede Jelineck, premiada com o Nobel.Com o longa-metragem Caché ganhou em 2005 a Palma de Melhor Diretor em Cannes. No elenco está Juliette Binoche, em história de suspense psicológico.

Refilmou nos Estados Unidos, em 2008, seu trabalho de 1997, Violência Gratuita, tendo no elenco Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt. O filme dividiu críticos e opinião pública por causa do tema que causou repulsa. Na ocasião, respondendo às críticas negativas, disse que “há tanto de mal como de bem em nós, seres humanos.”Em 2009, no Festival de Cannes, recebeu a Palma de Ouro de Melhor Filme por A Fita Branca, cuja história se passa na Alemanha anterior à Primeira Guerra. Previsto para ser uma minissérie de três capítulos para a televisão, por razões de custo, caiu nas mãos da produtora Maragreth Memégoz, que se encantou pelo roteiro e buscou recursos para fazer o filme.

Em 2013, com Amor, concorreu a cinco indicações ao Oscar: melhor filme, melhor filme estrangeiro, direção, roteiro original, atriz. (SM)

Serviço
Título: A Fita Branca
Direção: Michael Haneke
Fotografia: Christian Berger
Gênero: drama
Duração: 144 minutos
Onde: nas locadoras

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