Carmelita dos Confetes

Por: Chiachiri Filho

220628

Se viva estivesse, Carmelita faria, no dia de hoje, 97 anos de idade. Infelizmente, ela não esperou para receber o calor de nossos parabéns. Ela partiu. Partiu sob a tristeza de nossas lágrimas. Partiu e deixou um imenso vazio em nossos corações.

A Carmelita dos Confetes nasceu numa noite de carnaval e assim foi batizada na crônica de um escritor enamorado, publicada na imprensa francana no início dos anos 40 do século passado. Era o meu pai que escrevia e com esse texto apaixonado ele conquistou a bela moreninha, a sertaneja que viria ser minha mãe.

Durante 68 anos eu convivi diuturnamente com Carmelita. Suas mãos me alimentaram, me lavaram, me vestiram, me ampararam. Suas mãos acompanharam as minhas no desenho das primeiras letras. Encaparam meus cadernos e prepararam cuidadosamente os saborosos lanches. Seus ouvidos escutaram as minhas primeiras leituras. Nos momentos de medo e tristeza, refugiei-me em seu colo e seus braços afetuosos me enlaçaram. Suas mãos, suas mãos abençoadas que me beliscavam em minhas travessuras, eram as mesmas que me aplaudiam em minhas vitórias.

Carmelita era uma mulher simples, dedicada inteiramente ao lar, à família: cozinhava, lavava, passava, cerzia as roupas, limpava e arrumava a casa. Não era uma mulher de muitas letras. Era mãe, mãe amorosa, presente, companheira de todas as horas. Gostava de viver, viver simplesmente, sem nenhuma preocupação de ordem filosófica. Gostava de viver e viveu até os extremos de suas forças.

Ah, Carmelita! Minha mãe, minha adorada mãe, minha mãe inesquecível. Que falta você me faz! Sinto muita falta de seus beijos, de seus cuidados, de seus carinhos e até de suas implicâncias. Mesmo velhinha, deitada na cama, gemendo e sem a exata noção do tempo e das coisas, você faz muita falta.Você era a minha referência, o meu prumo, o meu porto seguro.

Ah, Carmelita dos Confetes! Tenho a certeza de que meu pai, em algum lugar desse universo, recebeu-a com o coração cheio de amor e com as mãos cheias de confetes. Para nós resta-nos a saudade, isto é, os pedacinhos coloridos da saudade.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras