Furo no ovo

Por: Jane Mahalem do Amaral

“Um minúsculo furo no ovo
e o passarinho não nasce”,
um anjo


Muitas vezes nos perguntamos: Por que quase sempre desistimos depressa, mesmo de coisas que começamos com grande entusiasmo? Colocamos grande força no início e, aos poucos, essa força vai se diluindo, deixando espaço para o antigo, para o velho, para o conhecido, para aquilo que já está cristalizado em nós. Isso acontece com a dieta, com as caminhadas, com o trabalho com o corpo, com alguns cursos que começamos e até mesmo com o trabalho voluntário, cujo único objetivo e ganho, é ajudar o outro. Logo, logo, a falta de tempo chega empurrando paredes e muros de determinação. Também chegam o sono, a preguiça ( nome feio, mas super verdadeiro!), os desejos condicionados desde a infância, aquilo que eu gosto de comer (por que me privar?), as dores no corpo e, finalmente a certeza recheada de justificativas, todas muito bem elaboradas, para que eu me sinta em paz com a desistência.

“Isso não acontece comigo”, dizem alguns, “só desisto mesmo quando não posso”. Nossa mente é ardilosa e cheia de espertezas e enquanto acreditamos nela, vamos ficando reféns de seus manejos. A verdade é que aquele personagem que eu conheço e tem meu nome, não abre mão de seus “achismos” e de seus confortos. No entanto, frente a uma tarefa mais difícil e pouco confortável, quase sempre ele reclama, então escorregamos e voltamos ao velho padrão.

Essa é a grande dificuldade para se chegar ao nosso verdadeiro eu. O caminho do auto conhecimento é uma trilha complicada e, por que não dizer, muito dolorosa. Quase nunca queremos enfrentar dificuldades impostas por nós mesmos, já que pensamos ser a vida feita de tantos problemas e por que vou eu deixar de comer aquele doce? Por que ficar sentindo dores no corpo após uma aula intensa de trabalho com o corpo? Acordar cedo? Não...não gosto. E por aí vamos nos afastando de nossa real identidade, vamos deixando de compreender o verdadeiro sentido de estarmos aqui e agora. Quem sou eu? E por que estou aqui? Essa é a pergunta milenar que todos os sábios e santos tentaram responder. Mas é essa investigação, de um sentido mais profundo, que pode nos conduzir para além dessa superficialidade medíocre que acreditamos chamar de eu. E é justamente durante essa caminhada que realizamos a descoberta da nossa força interior. Aquilo que eu pensava não conseguir, percebo que sou capaz quanto mais me determino e me proponho a realizar. Mas isso não pode ser só para o trabalho, para a realização profissional e a conquista do dinheiro. Para isso, sim, fomos treinados. Fundamental é não nos perdermos no excesso de responsabilidade, nas obrigações, no querer só executar bem as tarefas, sem nos conectarmos com nossa profundidade.

Nosso caminho deveria sair do ordinário em direção ao extraordinário.

A questão é compreender que não é no início que o bom corredor corre depressa. Não adianta um grande entusiasmo no início, se depois não houver determinação e força para continuar. O começo deve ser feito de concentração e cuidado. Meu professor de Yoga e Meditação assim me ensinou: as descobertas que fazemos para o nosso crescimento devem ser cuidadas como um bebezinho que pede um dia a dia especial. Assim é preciso atenção plena em cada movimento do nosso corpo e da nossa mente para não jogar fora, quem sabe, toda uma vida não conquistada.

Então entendi o que o anjo me disse: “Um minúsculo furo no ovo e o passarinho não nasce”.

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