Todo paulistano conhece um baiano

Por: Paulo Rubens Gimenes

Igual a muitos, caí aqui em São Paulo arremessado lá da Bahia pela fome e pela falta de oportunidade. Além da esperança, trouxe comigo uma matula cheia de vazios, o analfabetismo, a fome e alguns piolhos.

Aqui chegando, assustado contemplei os prédios, o mundaréu de gente, os carros e no dia seguinte garrei na lida, virei servente de pedreiro. Contrariando a subnutrição eu era forte e trabalhava com gosto, levando tijolo, puxando areia, fazendo cimento.

Encantado, nem vi a semana passar e na sexta-feira, final de expediente, meu patrão me deu cento e vinte paus e disse:

- Aí, baiano, seu pagamento pela semana, não vai gastar tudo com cachaça e rapariga não, segunda-feira o batente é pesado.

Não consegui disfarçar minha alegria, nunca que eu tinha ganhado tanto dinheiro, lá no sertão a gente trabalhava era mesmo a troco do pouso e comida. Enriquei!!!!

E como todo mundo que fica rico, fui satisfazer meus sonhos; passei na mercearia perto do alojamento e comprei quinze quilos de macarrão a granel, daqueles que parecem parafuso e durante a semana inteira comi macarrão no almoço, no jantar, no café da manhã e quando dava na teia; matei a fome de trasanteontem, de anteontem, de ontem e de amanhã.

Tamanha fartura me encheu o “esqueleto” e minha calça de tergal já puída que trouxe lá da Bahia começou a esgarçar; como era rico, fiz como rico, fui até uma lojinha na esquina da construção, comprei calça rancheira e camisa amarela listradinha e perfume mistral pra mode chegá charmoso no “rala coxa” que tinha na churrascaria do outro bairro.

Na outra sexta-feira, com mais uma bufunfa no bolso, vesti a farda, banhei-me de mistral e saí, mais cheiroso que filho de barbeiro, pra farra. Dei uma passadinha no boteco do Arlindo pra entorná uns “rabo de galo” pra desinibição, olhando num espelho que tinha em cima do caixa cismei que tinha coisa errada; esse cabelo encarrapitado não ornava com a farda de festa que eu ostentava.

Peguei uma lata de óleo de cozinha que estava perto da chapa do Arlindo, pus nas mãos e esparramei no cabelo, passando nele diversas vezes meu pente Flamengo. Liso, brilhoso feito artista parti pro “rala coxa”. Ia atravessando a rua quando uns bacanas num belo carrão gritaram pra mim:

- Oh baiano!

Sorrindo acenei pra eles e matutei:

- Todo paulistano conhece um baiano.

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