Uma tristeza circunflexa

Por: Maria Luiza Salomão

Gosto de rugas na face vivida, e marcas gráficas brincantes nas palavras. Aprendi a gostar de sardas, como de tremas. Nunca gostei de ponto e vírgula, mas ultimamente vejo neste sinal gráfico algum charme, assim como nos meus cabelos brancos. Adoro parênteses usados sem explicação alguma, como quando a gente sussurra ao ouvido de alguém - íntimo - para demonstrar que estamos juntos no pensamento e sentimento. Gosto demais de dois pontos: às vezes por puro deleite, por não saber o que vem depois de uma frase que eu iniciei; como se fosse contar uma coisa a um amigo e titubeasse na ideia. Gosto de isolar palavras, torná-las únicas, usando hífens, intimamente como fiz acima, ou através de qualquer sinal a mão. Não gosto de não acentuar ideia, ela se descaracterizou como brasileira. Vogais são o forte da nossa linda língua, elas são o som maior da nossa alegre musicalidade. O acento nas ideias convence os estrangeiros da necessidade de abertura nelas, combina com nosso jeito brasileiro de levar a vida. Aprendi em uma aula de semiótica que a entonação dos falantes portugueses frisa as consoantes, por isso temos jeitos tão diferentes de falar. No Brasil, frisamos as vogais, falamos Cabrau, e não Cabral, como eles, dobrando a língua no céu da boca. Isso faz uma enorme diferença. Não que eu seja particularmente nacionalista, mas há coisas que eu sinto que combinam, entre pessoas e entre letras, conectando frases e afetos. Um texto é uma festa: as pessoas, assim como as letras, precisam vibrar com a música e com o ritmo da conversa. Tolera-se na festa um transborde de afetos, que podem ter estilos desiguais de curtir som e sentido, para o bem da alegria de todos. Aspas são o meu pretinho básico, que uso em muitas festas diferentes, quando preciso transportar uma língua para outra, ou me entender com gentes diferentes, no meio do texto. Na transferência do psicanalês para português, por exemplo, as aspas me servem muito, de um jeito meu, gostoso, cúmplice com quem gosta de brincar de atravessar terrenos baldios, ou descobrir passagens para mundos paralelos. Nunca fui de combinar sapato com bolsa, eu sei a regra do tom sobre tom, e não costumo seguir padrões que não rimem com o meu estilo de ser. Blusinha de mangas curtas, com outra de mangas compridas por cima, nunca gostei. Era moda, não é mais. A língua é assim: hoje é ‘out’, amanhã é ‘in’.

Vou mudar de rosto no texto e, trocando em graúdos, a aparência pode ferir a essência. Talvez só eu mesma perceba, ninguém mais. Faz parte da vida - morrer um pouquinho hoje, e também amanhã. O trem vai passar pela Estação Maria Luiza e não vai pegar palavras passageiras, únicas, entre aspas, com parênteses, maniazinhas de habitante do interior. O trem coletivo passa rápido agora. Urge o resgate pós-destruição do antigo: o que sairá debaixo do circunflexo chapéu mágico da minha tristeza?

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