Presentificando o passado

Por: Everton de Paula

Uma pergunta para o leitor que ainda me atura: você crê que os jovens de hoje, daqui a 40 anos, falarão do seu passado com tanta saudade e fervor, como nós falamos hoje dos nossos idos tempos?

Eu acredito que não, pelas características de comportamento dessa garotada atual. Parece ser consenso que haja um vazio existencial entre eles, ilusoriamente preenchido em parte pelo tum-tum de músicas ensurdecedoras, pelo egoísmo acentuado, pelo consumismo exacerbado, pelo imediatismo cotidiano, pelo carpe diem, ou seja, o aproveitamento do hoje, do agora. Talvez sintam saudades do vigor da juventude, mas muito menos se importarão em reter na memória estilos arquitetônicos, melodias inebriantes, flertes, escurinhos de cinema, professores marcantes, aulas antológicas, a meninice, as aventuras de adolescência e coisas assim. São-lhes detalhes desinteressantes. Deixemos de lado, por enquanto, o jovem politizado.

Cabe aqui distinguir saudosismo de memorialismo. Entendo o saudosismo como uma atitude mental de caráter permanente que considera as coisas do passado sempre melhores, mais confiáveis, mais frutuosas. A família de outrora era mais bem constituída, mais sincera e mais duradoura que a família atual. As pessoas eram melhores, assim como a cidade, a escola, as amizades. Se depender de um saudosista, ele trocará sem titubear todo o progresso e todo o conforto de hoje pela vida simples de um passado não necessariamente remoto. Saudosista vive das glórias familiares passadas, ou dos impossíveis retornos. Saudosista foi Fernando Pessoa com sua inabalável fé no sebastianismo em pleno século XX.

Já o memorialista guarda um sem-número de fatos, acontecimentos, histórias, personagens. E quando se refere a eles, porém, faz com o maior respeito e se possível com apoio documental, mas nunca achando que a vida de ontem fosse melhor do que a de hoje. Machado de Assis foi um memorialista notável, um pouco menos, porém, que Joaquim Nabuco, com Minha Formação, livro que imediatamente ganhou o favor público por suas qualidades literárias capazes de reproduzir as paixões de uma época e de uma geração.

Tenho um bom amigo residente em São José do Rio Pardo; um garotão octogenário, possuidor de invejável vigor intelectual. Ele se diz memorialista e ainda consegue ver muita coisa boa na época de hoje. Eu também identifico alguma coisa positiva nos tempos atuais, mas que nem chega perto da intensidade do que vivi na meninice, na adolescência, na puberdade. Acho que isto me torna um pouco saudosista.

Leio com atenção Shakespeare, quando diz que “Lamentar uma dor passada, no presente, / é criar outra dor e sofrer novamente.” Mas quero rebater com Mário Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.” E depois, veja bem que não estamos lamentando o passado, mas enaltecendo os momentos de contentamento já decorridos.

Discuto muito esse tema com os mais chegados. Óbvio, a maioria se diz memorialista. Entretanto, vejo, leio, ouço manifestações saudosistas de muitas pessoas que já ultrapassaram os quarenta anos de idade. Querem um exemplo? O link “Apaixonados por Franca”, criado, se não me engano, pelo delegado Radaeli, postado no Facebook, com mais de 16 mil participantes, e crescendo a uma média de 20 participantes/dia. Percorro a página virtual e vejo ali, presentes, marcantes, fortemente legendadas com inferências elogiosas fotos do passado de Franca: casarios antigos, ruas de paralelepípedos, ônibus urbanos, hotéis que foram destruídos para darem lugar a construções frias de vidro e cimento armado. E relatos, meu Deus, como os há! “Você se lembra do Zuluaga”; “Sabe quem foi Maria Capotinha?”, “E Geraldo Pelotão?” , “Vejam a fanfarra do Champagnat”, “Este é um trecho da Major Nicácio em 1960”, “Olha aí, quem se lembra da água da careta?”, “Quem sabe você estava nessa matinê de carnaval na AEC?”, “O Flávio Rocha”, “O Onofre Gosuen”, “O Granduque José”... E quando eu penso que esses lances saudosistas se restringem apenas ao Facebook, o artista plástico (óleo sobre tela) Pedro Schiratto, por exemplo, lá no seu cantinho do Franca Shopping, recebe dezenas de pedidos de quadros sobre a Franca antiga bate todos os recordes o Hotel Francano. E a coluna de sábado da Lúcia Brigagão? Saudosismo ou memorialismo? Conhecendo-a um pouco como eu a conheço, arrisco um palpite: ela tende ao saudosismo.

De certa forma, há uma vontade coletiva inconsciente de trazer para o presente momentos, relatos e fotos do passado. Essas pessoas andam presentificando o passado, pois aí encontram tudo aquilo que verdadeiramente amaram com o mais puro de seus sentimentos.

Isto me faz chegar a uma dedução: gênio é quem vê o presente. O passado é fácil, pois já aconteceu, você se lembra. O futuro você imagina e acontece a cada segundo - veja: daqui a 2 segundos será o futuro. Pronto - ele já chegou. Dessa forma, eu não consigo ver nem sentir o presente. Gênio mesmo é quem vê o presente. Não preciso bajular, mas querem um exemplo de quem toma atitude crítica voltada ao presente, com intuito de melhoria para o futuro? O Corrêa Neves Jr., diretor responsável do Comércio da Franca. Mas que se diga: é dever de ofício.

Desculpem-me os imediatistas, mas o meu passado, compartilhado pelos colegas de escola, amigos e parentes, foi notável, mágico, inesquecivelmente maravilhoso. Se escrevo algo sobre o passado em Franca, há uma notável número de leitores que curtem o narrado e o enriquecem com outras informações relacionadas. Surge um desfile de Clube dos Bagres, Cine Odeon, bomboniere em frente ao São Luiz, as brincadeiras dançantes, as casas construídas no velho e elegante estilo da época áurea do café, personagens famosos, avenidas ainda não asfaltadas... E as lembranças de músicas para dançar. E como dançávamos, juntinhos, face a face, sussurros que o flerte proporcionava, o perfume da namorada que ficava nas mãos da gente, as serenatas. Estaria falando do passado de 1930, 1940? Não, sou da turma de 1950, portanto vivi toda a magia das décadas de 60 e 70, Beatles como pano de fundo. Estavam desabrochando Chico Buarque, Gil, Caetano Veloso, a bossa nova, Elis Regina... Time de futebol, então, apresentava uma só escalação por mais de dez anos. O Pelé não saiu do Santos; o Ademir da Guia era referência do Palmeiras, assim como o Garrinha do Botafogo do Rio, a estrela solitária. Havia tempo suficiente para se formar um álbum de figurinhas dos principais times do país. Sabíamos para quem era dirigida nossa torcida.

E é exatamente no “Apaixonados por Franca” que vejo que não estou sozinho. Comigo, mais de 16 mil francanos escancaram sua memória e demonstram uma saudade e uma certeza: como valeu a pena viver em Franca nas décadas de 60 e 70. Agora, é tratar de presentificar o passado, como um bálsamo sobre a cicatriz da nostalgia.

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