Um filme sobre finitudes

Por: Sônia Machiavelli

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Transtorno, ruína e desastre, parte da sinonímia da palavra grega que deu origem a catástrofe, povoam de forma silenciosa o filme Melancolia, outro nome tomado ao idioma grego, onde seu significado primitivo foi dado por Hipócrates. Bile negra cujo excesso no organismo causava sentimento de profunda tristeza, a melancolia estava associada também à marca da criação artística no período clássico grego. O diretor Lars von Trier parte portanto de um duplo ao escolher para título as formas comum e própria de um substantivo que tanto designa estado de espírito, como planeta prestes a se chocar contra a Terra e anular a presença desta na Via Láctea. Um crítico francês, Jacques Mandelbaum, acenou para o fato de que a ambiguidade da palavra serviu ao cineasta como recurso para não confiná-la ao sentido que lhe vem sendo conferido por psiquiatras, psicólogos e psicanalistas, ou seja, “de pertencimento aos campos da patologia e da inutilidade.” À melancolia há de se reconhecerem possibilidades também férteis.

Conhecido pela marca autoral que elidiu até a concepção usual de cenários, como ocorre em Dogville, e também como “o príncipe das trevas” do cinema contemporâneo, pelos temas pouco palatáveis, como Anticristo, Trier é um provocador de reflexões a partir de enredos quase sempre biliosos, que gosta de buscar dentro de si mesmo. Mas, às vezes, outros colegas o tocam e foi o que ocorreu com o filme de que tratamos aqui. A inspiração que lhe deu origem surgiu de conversa com a atriz Penélope Cruz, a quem Triers agradece nos créditos. Foi ela quem lhe acenou para certas questões colocadas no texto As Criadas, de Jean Genet. Embora a narrativa teatral nada tenha a ver com a fílmica, os substratos de ambas resvalam pela tragédia grega, onde o herói sempre é flagrado diante de um dilema. Temos no caso de As Criadas e Melancolia duas heroínas diante de finitudes. Mais um duplo, que o cineasta esteve a ponto de retomar na escolha dos nomes. Manteve Claire; substituiu Solange por Justine. Justine e Claire são as irmãs que protagonizam os dois episódios homônimos do filme.

A ação se desenrola numa mansão magnífica, mais especialmente no soberbo jardim que desce docemente para o mar. A primeira parte do filme leva o nome de Justine ( Kirsten Dunst). Na festa suntuosa e financiada pelo rico cunhado John (Kiefer Sutherland), ela deveria celebrar seu casamento. O verbo está no modo condicional porque a noiva, por mais que tente, não o consegue. Não se sabe exatamente qual seja a contribuição exata, para tamanha depressão, a ser creditada a convidados como mãe misantropa, pai negligente e patrão vulgar.

A segunda parte se chama Claire (Charlotte Gainsbourg), nome da anfitriã da festa suntuosa que termina em debandada geral, incluindo o noivo. Mergulhada a partir daí em profunda crise depressiva, dessas que impedem o doente até de tomar banho, Justine se reúne a Claire, a John e ao filho do casal, um menino de cinco anos, na casa espetacular. Os humanos acompanham então apreensivos a trajetória do planeta Melancolia, que se aproxima da Terra a 60 km por hora e pode destruir a casa dos terráqueos dentro de poucos dias.

Diante de um cenário onde a destruição total se coloca a cada momento como algo inelutável, os personagens desvelam sua essência. A disciplinada e controladora Claire perde o equilíbrio e desaba; a frágil e melancólica Justine ganha forças e toma uma derradeira iniciativa; o poderoso John se acovarda; o menino sonha como todas as crianças do mundo. E é com o sonho do garoto e o autocontrole de Justine que Trier cria a cena que é das mais bonitas de se ver no filme, entre muitas admiráveis. Nossa pequenez humana fica evidenciada de forma grandiosa e à beleza das imagens soma-se o valor moral para fechar a história mantendo-a viva na memória do espectador por muito tempo além dos créditos. A frágil caverna de galhos persiste emblemática em nosso espírito.

Melancolia anuncia-se desde o seu título. Mesmo assim surpreende. Pela plasticidade que o alça esteticamente na escala de valores artísticos, a ponto de ter sido comparado à versão em movimento da tela homônima de Albretch Dürer, do começo dos Quinhentos. Pela capacidade de construir uma história particular onde os sentimentos humanos e as leis da física ganham dimensão perceptível e partilhável por muitos, ao sinalizarem a insignificância do ser e do planeta diante da magnitude do universo.

Sem efeitos especiais, sem melodramas, o filme retumba em nós.


POLÊMICO POR NATUREZA

Lars von Thier

O talento para as filmagens começou cedo. Aos 10 anos o dinamarquês Lars ganhou uma câmera de sua mãe e não parou mais de captar imagens. Nascido numa família de intelectuais, teve uma educação pouco convencional, mesmo se levando em conta os padrões nórdicos. Disse em entrevista ter tido toda liberdade do mundo quando criança, só lhe sendo proibido “ter uma religião e demonstrar sentimentos”.

Nos anos 70 fez parte de um grupo de diretores de cinema amadores e com eles fez dois curtas, os primeiros que o iniciaram na arte. Frequentou a Escola Dinamarquesa de Cinema , onde eram frequentes os atritos com os professores. Ainda na faculdade fez mais dois curtas, onde experimentou novas técnicas. A partir daí seu cinema começa a ser adjetivado de Pós-Moderno. Seus temas são com frequência motivo de discussão.

Diplomado, produziu filmes para a TV e alcançou sucesso em seu país. Mas foi o filme Ondas do destino, de 1996, que tornou seu nome conhecido na Europa e EUA. Quatro anos depois ele lançou Dançando no escuro, que ganhou prêmios importantes. A celebridade chegou com Dogville, em 2003, uma concepção totalmente nova de filmagem. Viria em seguida Anticristo e depois Melancolia, cujo lançamento em Cannes foi marcado por escândalo. Lars fez uma surpreendente defesa do nazismo, não se sabe se a sério, se irônica. Foi considerado “Persona non grata” no famoso festival.

No momento filma Ninfomaníaca, com estreia prevista para setembro. (SM)

Serviço
Título: Melancolia
Diretor: Lars von Tiers
Gênero: Drama
Ano: 2011

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