Coragem

Por: Janaina Leão

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Oi meu nome é Bárbara, sou uma adicta em recuperação.

Estou limpa há sete anos, três meses e quatro dias. Não é fácil, mas tem valido a pena.

Quero compartilhar algumas coisas. Percebi a algum tempo que pessoas importantes cruzaram meu caminho, umas eu nem sei o nome, pois a duração do encontro foi de segundos. Outras eu sei bem, mas gostaria de esquecer. Não, não posso: elas também fizeram parte da minha caminhada.

Teve um que era psiquiatra e me disse, sem piedade:

—Ah, então você que é a Bárbara?! Nossa, me disseram que você tinha tanto potencial.

Senti muita raiva: olhava-me como se eu fosse um bicho morto e, além de tudo, de todo sofrimento ainda me chutava assim... Por muitos anos tive raiva dele e me machuquei com isso. Depois desse tempo ruminando, eu deixei partir, libertei-o do meu ressentimento, toquei meu barco. Percebi que depois disso cresci de alguma maneira. Descobri que a raiva é perigosa pra mim, raiva e adicção não combinam tenho que me controlar.

Sou uma pessoa que se irrita facilmente, levo coisas para o lado pessoal e se não me cuido acabo me anestesiando de novo para enfrentar os problemas da vida. Mas não tive só coisa ruim, teve uma vez que fiquei internada e uma senhorinha que eu não lembro o nome, encontrava-se muito triste e chorava sem parar. Comovida me aproximei e perguntei o que ela tinha. Ela disse coisas sem nexo e eu resolvi que mesmo assim ficaria perto dela até o final do nosso tratamento. Passados exatos seis meses ela foi embora e disse: — Xau Bárbara.

Ela disse meu nome! Senti uma alegria indescritível e aquilo veio de um lugar onde eu jamais esperava: de dentro. Depois disso tive muitas recaídas, uma mais desgastante que a outra, eu não suportava mais, meus pais não suportavam mais. Percebi com muito sofrimento que meu desequilíbrio emocional amputava minhas pernas, ou as conduzia para lugares onde o resto do meu corpo não queria ir, mas ia. Descobri que sou impotente e limitada perante várias situações, principalmente quando estou muito feliz, ou muito triste.

Tenho trabalhado todo dia a aceitação. O “muito” me atrapalha. Também descobri que ando gostando de coisas mornas. O quente e o frio andam me dando medo. Às vezes busco aprovação nos outros e eles, sabiamente ocupados com suas vidas não me dão atenção. Já chorei escondidinha cada vez que alguém deixou de me notar, em outras oportunidades dei birras gigantescas daquelas que cortam os pulsos e rasgam o silêncio e a paz alheia: e não resolvi nada.

Já odiei quem me amava, já amei quem me odiava. Perdi amigos valiosos, por conta de defeitos de caráter, defeitos de alma, já fui desonesta com outros, já violei templos. Ainda tento me perdoar... Não é fácil.

Tive momentos de insônia, momentos de fome, momentos desesperadores de solidão embarulhada. Passei anos negando amores reais.

Hoje uma mulher gritou comigo na fila do pão. Na hora senti-me tão mal. Ás vezes eu permito que o mundo me ofenda, mas não hoje. Só por hoje eu aceito o que é melhor para mim e por isso estou desabafando aqui, escrevendo. Eu respirei fundo, sabe... Estou cansada de tentar fazer o mundo girar ao contrário. Sabia que gritar de volta não adiantaria em nada. Pela primeira vez engoli seco. Não é só droga que me faz mal, às vezes eu deixo o mundo me ofender de tal forma que eu agrido quem passa no meu caminho, mas... Só por hoje eu escrevo esse diário, só por hoje eu quero buscar um prazer ameno e seguro, só por hoje eu quero ter autocontrole. Descobri na prece um alívio para minha pressa. Eu sou a Bárbara, mais uma adicta. Muito obrigada por me ouvirem.

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