Aldeia global

Por: Chiachiri Filho

Houve um tempo em que os moradores de pequenas cidades interioranas, principalmente os mais moços, desejavam mudar-se para os grandes centros urbanos. Iam em busca de empregos, de novas oportunidades, de uma vida melhor e mais confortável. A mudança significava também uma espécie de fuga. Fuga dos mexericos, das fofocas, das bisbilhotices das comadres que, sem terem muito que fazer, adoravam por o bico e falar da vida alheia. Nos arraiais, sabia-se de tudo e sobre tudo. Comentava-se o ocorrido, o a ocorrer e o imaginado. A comunicação era rápida, eficiente, e, muitas vezes, maldosa. As brigas entre parentes, o comportamento dos pais e dos filhos, o namoro das mocinhas, a situação econômica da família passavam, num piscar de olhos, para o domínio e conhecimento geral da comunidade. De fato, não havia privacidade. A vida de cada um era de domínio público e os pecados eram sistematicamente censurados, falados e propalados. O desejo da moçada era ir para uma capital como, por exemplo, São Paulo. Lá o rapaz seria um anônimo. Ninguém sabia quem ele era. Ninguém conhecia seus pais, seus irmãos, seus parentes. Portanto, sua privacidade estaria garantida e ele livre, leve e completamente solto.

Os tempos mudaram e o mundo, graças ao desenvolvimento da tecnologia, acabou transformando-se numa aldeia global. Se se quiser, tudo se pode saber de todos. Quem fala através de um telefone, quem usa o computador para se comunicar, poderá perfeitamente estar sendo ouvido e gravado por um Big Brother indiscreto e curioso. Até o Tio Sam resolveu bisbilhotar a vida dos terráqueos. Através dos satélites de comunicação, pode-se localizar a casa de uma pessoa e rastrear as suas caminhadas. Uma conversa telefônica ou uma troca de ‘e-mail’ poderão virar manchetes ( principalmente se o interlocutor for um político) nas redes de televisão. As praças, as ruas e os edifícios de uma cidade possuem olhos eletrônicos que tudo veem, que tudo informam e que tudo registram.

Acabou-se a privacidade. Os Big Brother controlam e fiscalizam tudo. Somente as pessoas sem nenhuma importância, isto é, os absolutamente anônimos, aqueles cuja vida não desperta interesse de ninguém, conseguem escapar da curiosidade individual, coletiva ou estatal.

Ao que tudo indica, discreto leitor, a comunicação mais segura em nossos tempos é a velha e boa carta, selada, lacrada, carimbada e entregue aos cuidados dos ‘Correios e Telegraphos.’

Chiachiri Filho,
historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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