O caminho de Amelinha

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Olavo deparou-se com aquela moça de quase quarenta anos que conservara o frescor da juventude. Era morena, cabelos penteados com simplicidade, boca pequena, corpo naturalmente modelado, de movimentos delicados. Atendera-o, quando procurara por seu pai, no comércio atacadista, em busca de mercadorias para revender. Nunca a vira lá e admirou-se de ela lhe falar com suavidade, mantendo os olhos baixos, deixando aparecer as longas pestanas. Amelinha era filha única do senhor Januário e quase nunca aparecia para os clientes, pois além de seu pai não gostar, preferia a reclusão de sua casa. Homem forte, claro, de olhos expressivos e feições definidas, com grandes entradas nos cabelos, acostumado à vida dura de trabalhador, Olavo não teve tempo de pensar em se casar. Mas ao vê-la, invadiu-o um sentimento de ternura.

Ela recusara vários pretendentes. Por insistência do pai que queria vê-la casada e segura, aceitou-o como marido, já que ele não lhe era totalmente indiferente. Foram morar próximos aos pais dela, em Santa Cruz, ligada à capital por uma linha de trem de ferro que os conduziu em viagem de lua de mel. De lá, foram de ônibus ao litoral. Amelinha emocionou-se ao ver o mar azul de ondas espumantes arrebentando na areia fina. A praia, nos anos 70, oferecia cumplicidade ao casal e assim ela foi apreciada, tranquilamente, por vários dias. Não tiveram filhos. Viveram, harmoniosamente, por muitos anos, embora ela tivesse desenvolvido um singular devocionismo, depois que seus pais faleceram. Olavo era dinâmico, honesto, cuidava para que nada faltasse. Com seu gênio dócil e atitudes gentis ele a conquistou e ela aprendeu a amá-lo.

Aos poucos, sem que se percebesse a real causa, ele começou a ter um comportamento alterado, tornando-se agressivo, ríspido e dominador. Proibiu-a de ler a Bíblia que mantinha trancada em uma gaveta cuja chave levava, junto às outras da casa, inclusive a da porta da rua, em um chaveiro preso à correia da calça. Surtos de cólera começaram a dominá-lo com frequência. Exigia cuidados domésticos desnecessários e, logo, esquecia-se de como tinha agido. Amelinha assumiu a direção da casa, pois a doença dele foi longa, mantendo-a prisioneira física e emocionalmente. Suportou, com resignação, o penoso encargo, voltou às suas leituras, mas, agora, era outra pessoa. Estas coações levaram-na a uma vida insana, sem liberdade, sem ilusões. Não se cuidou, anulou-se em função dele, não construiu sua própria história. Desenvolveu sentimentos impróprios dela, tornou-se irritadiça e mordaz. O novo século encontrou-os solitários e enfermos. Transtornos cardíacos a acometeram e foi, com dificuldade, que ela acompanhou o marido ao médico, naquele dia, levados por um primo distante. Quando voltaram da consulta, com os laudos atestando a total demência dele, de novo sozinhos, ela encaminhou-o para a cama do casal, acomodando-o. Consumida pela desesperança, sufocada por tantos anos de submissão, explodiu num gemido de dor, caindo, ao seu lado, exausta, sem vida.

Os vizinhos notaram o silêncio e vendo a situação impactante daqueles dois idosos, providenciaram o necessário. Ele foi encaminhado ao Serviço de Atendimento Municipal; ela, direto ao cemitério, onde seu corpo, pelo menos, não mais sofreria.

Maria Rita Liporoni Toledo,
professora

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