O arco-íris

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O menino fica na ponta dos pés, segurando a madeira do balcão.

- Dona... Dona...

A vendedora procura com os olhos e não localiza mãe ou pai. Não vê adultos nas proximidades.

- Dona... Dona...

A insistência derruba a indiferença.

- Posso te ajudar?

- Tem caderno de desenho?

- Tem.

- Eu quero um.

- De quantas folhas?

- De muitas.

A balconista se afasta, volta, inclina-se um pouco, entrega ao menino um caderno de cinquenta páginas. O garoto não tem pressa. Vai passando as folhas com atenção. De repente, devolve o caderno.

- Esse não tem desenho.

- Uai, caderno de desenho não tem desenho mesmo. Caderno de desenho é pro aluno desenhar. Não sabia!?

- Sabe, dona, eu queria é caderno pra pintar.

- Isso não tem não. Pra pintar, só tem revista.

- Então eu quero uma.

- Não é aqui não. Revista é lá na frente, naquele corredor lá.

O menino vira as costas e caminha devagar na direção indicada pelo fura-bolo da mulher. Depara, então, com uma variedade enorme de revistas e jornais. Fica um tempão, olhando as gôndolas, indeciso. Sua salvação é uma moça de uniforme vermelho, repondo mercadorias nas prateleiras.

- Dona... Dona...

- Oi, o que que você quer?

- A senhora me ajuda?

- Ajudo. O que que você quer?

- Eu quero uma revista pra pintar.

- Vem cá... Aqui, olha. Agora você escolhe.

O menino passeia os olhos por páginas de três ou quatro revistas, faz sua escolha. Volta à moça de vermelho que agora está no alto de uma escadinha.

- Dona... Dona...

- Oi, achou?

- Achei. Vou levar essa aqui. Ela tem um arco-íris. Agora eu quero é lápis de cor.

- Vira nesse corredor e vai olhando que você acha.

O menino percorre o caminho indicado, os olhos atentos. E eles ficam arregalados diante das caixas de lápis. Faz a escolha.

- Vou levar essa grandona, vou pôr as doze cores no arco-íris.

Entra na pequena fila, chega logo ao caixa, entrega revista e lápis.

- Quanto custa?

Não revela qualquer emoção diante do valor comunicado.

- Espera aí que eu vou pedir dinheiro pra minha mãe.

Sem qualquer pressa, caminha para fora da loja, anda até à esquina. Fala baixinho ao ouvido da mulher.

- Mãe, dá dinheiro pra mim comprar lápis colorido e uma revista? Custa só...

- Tá ficando doido, moleque? Some daqui, fica longe... Senta lá no banco... Vai, anda...

O menino se afasta de cabeça baixa, atravessa a rua, senta em banco de cimento, lá na praça enorme. Olha para o céu, conversa sozinho.

- Se a mãe desse o lápis, eu podia pintar aquela nuvem de preto... Aí chovia outra vez... Aparecia o arco-íris...

Ali perto, uma mulher sentada no cimento nem percebe que atrapalha o trânsito de pedestres. Simplesmente estende a mão e suplica.

- Uma ajuda... uma esmolinha pelo amor de Deus..

Alheio, o sol queima homens indiferentes que atravessam a praça.

Luiz Cruz de Oliveira,
professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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