Em defesa

Por: Janaina Leão

Conheci um cara, há muitos anos. Ele existe em minha vida desde os quinze, por aí. Crescemos juntos, ele de um lado, eu de outro. Lia Paulo Coelho como quem toma um copo d’água, depois de passar pelos biotérios da vida. Senti uma identificação profunda ao ler sua solidão, seus questionamentos, sobre si, e sobre o mundo. Estivemos num mesmo inferno, e só quem esteve lá enxerga a verdade num olhar - por trás de toda máscara tem dois olhos que se enxergam. Sempre criticado, sempre provocado, na terra onde nasceu. Deve ter sido difícil para ele, assim como foi e é para mim. Encontrei-me com ele na semana passada. Esbarrei numa estante de livros que ia cair quando a segurando, dei de cara com: ‘O Vencedor está só’ - a última história que ele queria me contar.

Ele acabara de escrever e enviou uma mensagem para o Universo: Janaína, leia minha última história, das muitas que ainda quero escrever, mas, só por hoje eu lhe conto esta.

Recebi a mensagem por apenas: R$ 9,90 e o capricho da embalagem, a qualidade daquilo me levou a crer, que levei de graça.

Ele longe de casa, eu longe de casa. Ambos comprometidos com o Bom Combate. Por isso ele disse, citando Walt Whitman:

‘Seja você quem for agora segurando minha mão, sem uma coisa há de ser tudo inútil - é um leal aviso o que lhe dou antes que continue a me tentar: não sou aquele que você imagina, mas muito diferente. Quem é que gostaria de vir a ser um seguidor meu?Quem é que gostaria de lançar sua candidatura ao meu afeto?O caminho é suspeito,o resultado é incerto, destrutivo talvez;teriam que abrir mão de tudo mais tendo eu a pretensão de ser seu padrão único e exclusivo; sua iniciação haveria de ser ainda assim extensa e fatigante,toda a teoria da sua vida passada e toda conformidade com as vidas em redor precisariam ser abandonadas; por isso deixe-me agora antes de perturbar-se ainda mais,deixe cair sua mão do meu ombro,coloque-me de lado e siga seu caminho.(Leaves of Grass)’

Não julguem Paulo Coelho, não da forma humana - demasiadamente humana. Ele é meu amigo, e me ensinou/ensina muitas coisas.

Janaina Leão,
psicóloga

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