Busca (ou Confidência aberta)

Por: Eny Miranda

O céu, o mar, o fogo... uma pedra, a asa de uma borboleta... um ipê rosa e seus esféricos buquês de pétalas... a força de uma chuva de verão, a fragilidade da gota que resta sobre a folha... tudo é poesia, e poesia de mil formas recriada e registrada pelo homem, em letras, notas, cores, contornos ou cinéticas posturas. E por ser recriada e registrada pelo homem, sua imagem se refaz inúmeras vezes, aos olhos, às mãos e à alma de seu (re)criador.

Em cada novo poema, em cada nova sinfonia, nova tela, imagem ou coreografia, nem o céu, nem o mar, nem o fogo são os mesmos; nem a pedra, nem a asa da borboleta; nem o ipê e suas muitas pétalas; nem a chuva, nem a solitária gota dizem as mesmas palavras, cantam os mesmos cantos, refletem as mesmas cores e formas ou dançam as mesmas danças.

Com a expressiva liberdade de suas pinceladas impressionistas, marca luminosa da Arte em sua arte, o francês Claude Monet eternizou a fachada gótica da catedral de Rouen em uma série de 50 imagens pintadas em horários diferentes, demonstrando a influência de apenas um detalhe - a luz - sobre a percepção da realidade. Com isso, Monet demonstrou também a pluralidade da criação artística.

O poeta olha o céu, leve de azul ou carregado de cinza; o mar, espelhado ou encrespado; olha um ipê e seus esféricos buquês de pétalas, e deseja recriar, refazer, revelar aquelas imagens sob 50 diferentes sóis; tecer delas uma renda com pontos e laços jamais usados. Para isso busca, nas mil e uma cores dos mil e um fios disponíveis no reino do verbo e do verso, aquelas que o satisfaçam. Mas não é fácil encontrar delas senão umas poucas e fugidias unidades. Não é simples fazer Arte.

Criar é produzir corpo com o labor da alma. Tarefa árdua. A Arte não transige: exige mente e alma e carne do artista a seus pés, e o artista necessita de liberdade para buscar, entre todas as letras e cores e formas e notas e sintaxes existentes, aquela que lhe fecundará a mente e a alma, na sanguínea geração da palavra certa, do tom ideal, do contorno mais expressivo para satisfação da Arte. Ao pintor de quem se retira uma nuança, retira-se dele a possibilidade da arte plena, porque, para ele, arte é vida, e cada detalhe na vida é fundamental.

Na arte literária, a língua portuguesa tem sido pródiga em matéria-prima. Ainda assim, retire-se do poeta uma letra e sua poesia se arrisca a nascer mutilada. Letras são genes, o fio-anima de cujos laços e enlaces, de cuja tessitura e conjuntura nascem as palavras, frutos do longo evoluir das primeiras raízes verbais.

Palavras são, portanto, matéria viva, maleável, multifacetada, pluriconotativa... se as deixamos vivas. E são vida útil, se lhes permitimos viver, admitindo sua presença na Arte, sem cerceamentos, sem prejulgamentos, sem segregações.

Neste momento, procuro os fios de tecer palavras - quaisquer palavras capazes de registrar o mundo sob 50 formas diferentes, segundo os raios de 50 diferentes sóis; busco palavras livres e belas - possíveis ou não, normatizadas ou não, dicionarizadas ou não - para saudar o nascimento de um novo espaço de arte, ou melhor, de um mesmo espaço de arte sob nova incidência luminosa; recanto destinado à celebração, ao canto, às bodas de incontáveis seres verbais - Rouen da poética francana, apresentada agora sob o sol de nova manhã. Procuro letras para as novas cores do Nossas Letras.

Eny Miranda,
médica, poeta e cronista

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