Quatro retratos

Por: Everton de Paula

ra noite de carnaval. Uma escola de samba, muito pobre, desfilava na avenida para algumas pessoas que teimavam em permanecer na calçada. Nada era interessante. Voltei para casa, que era perto dali. O som do batuque ia se desmanchando no ar da noite quase quaresmal. Dobrei uma esquina. Caminhava lentamente. Passei em frente à casa do turco. Janelas e portas fechadas. Mas a luz da sala estava acesa. Pelas frestas da veneziana, que ficava no alpendre, escapava o som baixinho de um rádio que tocava uma música das ‘antigas’: Meu cafezal em flor, tanta flor, meu cafezal! O ambiente sugeria solidão. Eu tinha oito anos e nunca soube quem estava ouvindo rádio, naquela sala, naquela noite, naquele tempo. Nunca soube e nunca saberei, mas não sei explicar por que este momento de cinco ou dez segundos permaneceu retido em minha memória.

Tinha o estranho gosto de subir no telhado da casa. Lá de cima, divisava uma parte do bairro em que morava. Ficava por ali, deitado, acima de pai, mãe, irmãos, vizinhos, da lição de casa, gozando a delícia de mirar o céu um pouco mais perto de mim. Imaginava desenhos formados pelas nuvens e fixava o olhar no vôo altíssimo e vagaroso daquele ou de outro urubu, pássaros negros que ainda voam no céu de minha memória da infância. Um dia, reuni algumas quinquilharias numa caixa de sapato: fotos, santinhos de padre, um time completo de jogo de botão, um pião, penas de um periquito que tínhamos no quintal, um toco de cigarro que meu pai havia fumado, um pequeníssimo frasco quase vazio de perfume barato, um espelhinho de bicicleta, uma figurinha do Pelé e uma carta que escrevi para o futuro, pensando que nunca mais mudaríamos daquela casa... Reuni todas essas miudezas e as ajeitei na caixa. Vedei-a com fita colante e amarrei-a com um barbante grosso. Retirei cuidadosamente algumas telhas, penetrei na escuridão do espaço entre a laje e o telhado, afastei algumas teias de aranha e escondi o arranjo embaixo da caixa de água. Voltei, recoloquei as telhas no lugar e desci para a vida de adolescente. Eu tinha doze anos; mudamos de casa. Hoje, passados cinquenta anos, resisto em chegar aos moradores atuais da casa, que fica na Vila Monteiro, para lhes pedir licença e subir ao mesmo lugar a fim de reaver minha caixa de sapato.

Minha mãe estendia um lençol de tafetá azul-marinho sobre o peitoril da janela que dava diretamente para a rua. E a procissão noturna da Sexta-Feira Santa passava. As luzes dos postes eram apagadas, de sorte que o clarão bruxuleante das velas, nas mãos dos fiéis em fila, lançava sombras estranhas nas paredes das casas e no piso das calçadas. O cheiro de flores quaresmais misturava-se ao do sebo quente derretido das velas. O Cristo morto desfilava suas chagas de olhos semicerrados, enquanto o padre, de estola roxa sobre a alva , recitava a primeira parte da Ave-Maria, seguido pelo Santa-Maria, mãe de Deus das vozes veladas de todo o séquito. A janela onde estávamos era baixa. Uma velha, a mais feia, talvez, da procissão, aproximou-se devagarinho e estendeu seu braço fino e enrugado em direção a mim. Fez o sinal da cruz em minha testa, mostrou seus dentes amarelados como num sorriso às avessas e seguiu caminho, perdendo-se no povo. Eu tinha sete anos.

E os antúrios, então, lembro-me deles, belíssimos antúrios que minha finada tia cultivava no quintal de sua mais que secular casa, com todo o jeito de chácara, ali a uns passos da praça central.

Obedecendo a rigoroso cronograma, um grupo (tios e meu pai) lá se reunia para travar renhidas batalhas no jogo de baralho.

Nos intervalos da jogatina, os frequentadores iam esticar as pernas no quintal imenso.

A casa de minha tia era bem visitada pelo padre da igreja matriz. Quando coincidia de ele chegar na hora do jogo, os jogadores abaixavam as cartas sobre a mesa, tapavam-nas com o cobertor como a esconder um pecado mortal.

Certa tarde de domingo, o padre deve ter ficado mesmo maravilhado com os vasos de flores, mas se impressionou sobremaneira com os antúrios em sua obscena beleza. A certa hora, perguntou em voz alta à minha tia, que tinha lá seus repentes do mais puro desbocamento:

– Dona Cota, qual o segredo da vivacidade das cores desses antúrios?

Naturalmente ele queria apenas uma explicação viável, como a fertilidade do solo, a constância do trato, coisas assim. Mas minha tia achou que a curiosidade dele merecia melhor explanação. Chegou perto dele e lhe cochichou ele nem imaginaria o quê.

O padre arregalou os olhos, raspou a garganta, ficou muito desenxabido e tratou logo de mudar de assunto. Os assistentes da cena fizeram de conta que nada viram, nada ouviram.

Eu sei o que minha tia lhe disse ao pé do ouvido, porque ela já me dera a mesma impudica e fantasiosa explicação, mas se eu a contar, a historinha perde toda a sua aura de inocente mistério.A casa eu digo: era do capitão Zeca de Paula, de esquina, entre a Campos Salles e a Saldanha Marinho.

Everton de Paula,
acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos

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