Histórias de pescador...

Por: Maria Luiza Salomão

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Ed Bloom, o pai-personagem de Peixe Grande me fez lembrar o meu pai, também delicioso contador de histórias. No universo infantil, o pai ocupa o lugar de herói, de lenda, personagem de conto de fadas, um semideus, tendo força de gigante, coragem do leão, ferocidade do lobo, argúcia da águia, resistência do guerreiro a lutar contra um exército, a nos resgatar, enquanto crianças. Atravessamos a infância, como Will, personagem, filho de Ed Bloom, ouvindo (ou editando, interiormente) histórias do pai. Como Will, podemos nos decepcionar com aquele ser poderoso, simples mortal, que envelhece e de quem, eventualmente, teremos de cuidar, algum dia.

No filme, acompanhamos a reconciliação de um filho com seu pai às portas da morte, na (i)realidade e (des) conhecimento entre o que é da lembrança, o que é da imaginação, o que é da realidade. Recortado em flashbacks, narrativas em diferentes tempos de vida do pai-protagonista, o filme se mantém entre mundos verossímeis e inverossímeis, sem perdermos a convicção do valor da experiência do ser pai, do ser filho. Will Bloom, adulto e casado, quer descobrir quem era o pai Ed Bloom, se as histórias narradas por ele aconteceram realmente, ou se seriam um produto da sua mente fértil, dilema central no filme.

O Olimpo do universo infantil é tão pródigo de mitos como o Olimpo da Grécia Antiga. Um pai, como Ed Bloom, é lavrado em memórias quase sagradas, em um canto qualquer da alma de qualquer filho. A partir de uma reflexão sobre a história, penso que talvez o interesse acentuado dos homens, em geral, por filmes de ação, possa vir do desejo infantil de ter um pai indestrutível, à prova de balas de canhão, um Rambo que vence o Mal, e ainda sabe brincar, restaurando a confiança de que o Bem sobrevive. A origem dos super-heróis pode vir da fé no Pai, esse que tem poderes misteriosos sobre a mãe. As mulheres, por sua vez, anseiam pelo Príncipe Encantado, gentil e corajoso, capaz de defendê-las contra qualquer ameaça possível na Terra, e fora dela. Quem é a referência para tal Príncipe, senão o semideus da infância?

O psicanalista não distingue, no imediato de uma sessão psicanalista, o que é lembrança, recriação e um fato histórico na vida do paciente nas suas relações com figuras significativas, principalmente as parentais. Não importa se invenção, criação, ou o relato de uma experiência, todos são fenômenos vividos, a carregarem as cores e formas que formatam o ser da pessoa significativa, a mãe, e o pai. Dentro de seu aparelho psíquico, são trabalhadas as percepções e impressões do mundo exterior e as oriundas do seu mundo interior, suas sensações, sentimentos, pulsões, obsessões.

A diferenciação entre o que é da ficção e o que é da realidade é um trabalho complexo, exige sofisticado engenho de interpretação. Podemos, equivocadamente, tomar o desejo como se fora a realidade.

É o que faz Ed Bloom, quando tenta colorir sua vida com feitos heroicos, reinventando seu nascimento, exagerando aventuras que determinariam o seu destino, o de ser um grande homem.

Ou, por sobrevivência, criamos uma realidade individual, para não sucumbir à dor. Há uma fronteira móvel e frágil entre a realidade idiossincrásica e a loucura propriamente dita. Enlouquecemos ao não suportar a lucidez, e a loucura é defesa mortífera, a nos apartar da Vida.

Não é o caso do pai de Will Bloom, que parece feliz com a vida, com a paternidade, com a mulher, com as pessoas que conheceu. Digamos que ele fazia como o pescador faz com suas histórias: o peixe é sempre maior do que aquele que efetivamente pescou. Na saúde, a vida pode parecer insípida, sem sentido e Ed Bloom acaba por se reinventar, aos olhos do filho, aos seus olhos, com humor e engenho.

Um filme admirável que nos permite repensar a fantasia - consciente ou inconsciente - como uma riqueza íntima e pessoal que participa da construção da humanidade. Somos seres simbólicos, inscritos na linguagem, assim somos caracterizados como bons ou maus, feios ou bonitos, mansos ou ferozes, odientos ou amorosos e, mesmo o gênero, masculino ou feminino, tem diferentes funções em diferentes culturas. A memória é arsenal e instrumento ao moldar a imagem, interna e externa, do que fomos, somos e seremos. Uma narração pode se referir a lembranças, ou a experiências. Complexa mente, podemos estar inconscientes ao narrar o que vivemos, e desconhecermos se o inventamos. No mais das vezes, cremos no que narramos, como o pescador e suas histórias de pescarias maravilhosas, e são essas fabulosas narrativas que tornam nossa vida rica e profícua.

Peixe Grande é o filme que o núcleo Franca do Cinema e Psicanálise escolheu para exibir esta tarde no Centro Médico. Vai se seguir análise da psicanalista e psicóloga Ana Regina Morandini Caldeira. Depois o público discutirá.


O diretor

TIM BURTON

Diretor norte-americano, muito admirado pela sua imaginação fértil, que o faz criar imagens e mobilizar uma equipe e elenco que o seguem, confiantes no seu trabalho, nem sempre sucesso de crítica e de bilheteria, simultaneamente.

Tim Burton, em Peixe Grande, 2003, se vê mobilizado de várias maneiras. Seu pai havia morrido em 2000, e sua mãe em 2002. Há situações indizíveis, ele diz, na intrincada relação entre pai e filho, e ele se identifica com a história, que estampa essa complexidade. O filme é baseado no livro Big Fish: A Novel of Mythic Proportions, de Daniel Wallace. O filme teve locações em Alabama e ganhou o Oscar pela Melhor Trilha Sonora (Danny Elfman).

Tim Burton consegue produzir uma tessitura complexa entre mito e realidade, fantasia e realidade. Ele acredita que a memória funciona como retrata no filme: fatos reais são recortados e editados, eles se justapõem, entrelaçam-se com fatos psíquicos, vividos interiormente como se reais, aparentemente inverossímeis, fantásticos. O diretor vê o personagem Ed Bloom como alguém que exagera os acontecimentos, dando a eles uma vestimenta criativa, não como um louco ou mentiroso. Se não é verdade, é bem inventada, diz um dito italiano. A invenção dá a medida do criador, do gênio e de sua capacidade de fundar possibilidades de existência. Vide Homero, na Odisséia. Ed Bloom, o pai, inventa a sua odisséia, sua vida e sua morte. Um pai pode, ao cantar suas aventuras, criar dinastias...

Maria Luiza Salomão,
psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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Título Original: Big Fish
Gênero: Comédia Dramática
Origem/Ano: EUA/2003
Duração: 125 min
Direção: Tim Burton
Elenco: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alison Lohman, Helena B.Carter, Robert Guillaume, Marion Cotillard, Matthew McGrory, David Denman, Missi Pyle, Loudon Wainwright III...

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