A mudança, os gêneros e as cores

Por: Sônia Machiavelli

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O Comércio da Franca, que já teve artigo definido no seu título originalmente preto, e desde o último dia 18 exibe logo destacado em azul, passou por dezenas de transformações desde que fundado por José de Mello em 1915. A última delas, inaugurada no domingo, foi obra de 18 meses de trabalho de equipes de profissionais espanhóis e argentinos em parceria com editores e designers de nossa redação.

Mudar o que corre o risco de se fossilizar em formatos exauridos é medida necessária ao que se quer avante. Foi este descortino que levou os que dirigiram o jornal até aqui a lhe garantir existência que se aproxima do centenário. Neste contexto dinâmico insere-se o Nossas Letras, caderno que circula aos sábados como parte integrante do Comércio, tendo no par formado por escritores e leitores o eixo que o faz funcionar há anos. Se é óbvio não haver literatura sem escritores, às vezes é preciso lembrar que ambos não sobrevivem sem público. Lição importante que nos dá Afrânio Coutinho na sua Introdução à Literatura Brasileira.

Nas duas últimas décadas, este que já foi Caderno de Domingo, quando circulava no primeiro dia da semana, passou do formato standard para tabloide e publicou dezenas de colaboradores. Uns chegaram e ficaram; outros partiram; apareceram os que cresceram a ponto de lançar seus primeiros livros. Mas isso que é a sua essência nunca mudou: ele é lugar de acolhimento da produção literária regional e espaço disponibilizado aos que gostam de acompanhar os que em gêneros e estilos diversos fazem da palavra literária seu instrumento estético de revelação de mundos.

Assim continuará perfilado e os que cultuam as letras prosseguirão se expressando no caderno que é dos poucos que restam no Brasil. Os sobreviventes foram sumariamente deletados nos últimos anos, pressionados pela falta de suporte publicitário e pelo avanço das mídias digitais. O Nossas Letras resiste. Com a crônica e seu caráter de fixação de fatos do cotidiano. O ensaio, a resenha, o memorial como estímulo para a reflexão num mundo caótico onde vozes organizadoras são bem-vindas. A poesia que é sempre instrumento para mobilizar emoções. E a ficção em seu milagre de soerguimento de universos habitados por criaturas únicas saídas da imaginação.

Relatos, crônicas, críticas, resenhas, ensaios, memória, as imprescindíveis poesia e prosa lírica estarão em nossas páginas para a leitura que se torna mais inteligente quando empresta aos textos novos sentidos, outros aspectos. Mas chegarão a partir de hoje num caderno redesenhado, onde se procurou alcançar harmonia entre o clássico e o moderno. O contraste das capa e contracapa coloridas com o preto e branco das páginas, assim como a combinação de fontes sem serifa e capitulares maiores são exemplos deste equilíbrio buscado. Os espaços brancos alçam importância e conferem leveza ao caderno, tornando-o mais agradável à leitura, qualidade buscada pelo novo projeto gráfico.

Nossas Letras terá agora na página rosto sinalização colorida. Em cada número, a cor identificará o gênero que ganhará direito à chamada. Hoje, por exemplo, a ficção mereceu destaque. Sua cor é vermelha, por vinculação à paixão que move todo criador. A poesia terá no amarelo o seu símbolo, pois está muito associada ao ânimo (Quem esqueceria Adélia Pardo com seu verso sinestésico: ‘o amarelo engendra’?). O verde da vegetação, de começo de vida que subentende enraizamento, servirá como suporte ao texto onde a memória tenha relevância temática. Sobram os azuis que remetem a percepções, intuições, liberdades. O azul ciano estampará o ensaio e a resenha; o anil, a crônica, da qual gostam muito os escritores e leitores francanos.

Qual foi o critério para estas escolhas cromáticas e associações arbitrárias? Poderia até dizer que me inspirei em Rimbaud e suas Voyelles, mas não é verdade. Segui o senso comum e algumas sugestões da cromoterapia. Por aí iremos colorindo os sábados dos francanos que encontram no Nossas Letras o tempo que não é o do relógio nem o da história. É o tempo suspenso da alma que busca energias nessas latitudes intangíveis do sonho, por onde navegam os que leem e os que escrevem com aquela aguda consciência de que todo texto literário, como o conceitua Cristovam Tezza, é em essência “a resposta solitária que se dá às provocações do mundo”.

Sônia Machiavelli,
professora, jornalista, escritora

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