Breve história

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Breve história/ Azar. Gente, hora e lugar errados. A criança se transformara em moço bonito, trabalhador, excelente filho e irmão, primo querido. Final dos anos 60, a cidade mineira onde morava volta meia se movimentava com manifestações populares contra governo; o local, do estado e do país. Se havia reivindicações justas, havia outras descabidas. Se aconteciam ataques contra a precariedade dos benefícios públicos, havia outros de desabono ao que os comunistas diziam ser benesses da burguesia. Foi assim que a turba se dirigiu a recém-inaugurado cinema da cidade. Tinha cortina de veludo, poltronas estofadas, tapetes espessos, banheiros de mármore... O rapazote passava em frente ao prédio no momento em que chegaram manifestantes com porretes e palavras de ordens. Apoiou-se na parede da casa do outro lado da rua para observar, acreditam. Não viu quase nada, imaginam. Presume-se, mal ouviu barulho de vidros despedaçados, ruído de balas de revólver, gritos . O corpo ficou encostado na parede, sentado, braços soltos, cabeça sobre o peito, imperceptível furo entre os olhos. Bala perdida: justificaram para a família.

(Lúcia H. M. Brigagão)


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