O estouro da boiada

Por: Chiachiri Filho

Prezado leitor já deve ter lido magníficos e inesquecíveis textos sobre o estouro da boiada. Vários autores, com muita maestria, discorreram sobre o tema . Começam descrevendo um ambiente calmo, perfeitamente controlado pelos experientes peões. São milhares de bois marchando compassadamente sob o ritmo e controle dos vaqueiros. Vez por outra, um indivíduo foge da manada. Porém, em poucos minutos os peões alcançam-no e o introduzem novamente na manada. Ao longo de toda a jornada, a grande preocupação dos condutores é com o perigo constante de um estouro. Se ele ocorrer, não há quem o reprima. Basta um barulho diferente um grito, um espocar de fogos, um tiro para que aconteça o estouro. E o estouro é terrível, arrasador. A boiada desembesta pelos caminhos, rompe cercas, atravessa riachos, pula os valos, pisoteia as plantações, invade as povoações, enfim, deixa um rastro de destruição e desordem.

Certamente, há algumas semelhanças entre as manadas que estouram e as multidões que se revoltam. Normalmente calmas e comportadas, as multidões podem estourar a uma simples voz de comando.Basta alguém gritar “Queremos passe livre!”, “Chega de corrupção!”, “Cadê o Amarildo!”, “Abaixo a burguesia!”, e, ainda, “Fora Alckmin!”, para que milhares de pessoas saiam às ruas, invadam as praças, pichem monumentos histórico-culturais, invadam as Câmaras e Assembléias, depredem estabelecimentos públicos ou privados, queimem ônibus, alojem-se em próprios governamentais.Depois dispersam-se e voltam para suas casas como cordeirinhos inocentes. Porém, a uma voz de comando impositiva, voltam novamente com toda ira e turbulência até cansarem ou perceberem, se é que percebam, que é o cumprimento da lei (e não a sua transgressão ) a maior garantia do cidadão.

Sem dúvida, prezado leitor, há um quê de bovino na raça humana. Somos comportados, disciplinados, obedientes. Acordamos, vamos para o trabalho, para a escola e, mansamente, voltamos para casa. Um dia explodimos, fugimos das regras, rompemos barreiras, balançamos as velhas estruturas. Um dia estouramos e os peões, com bombas e cassetetes, reprimem-nos e esperam acabar a fúria para enquadrar-nos à vida pacífica e pachorrenta dos rebanhos.


Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras