Tempos redescobertos

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Quando foi? Difícil dizê-lo com exatidão. Esse tempo já se perdeu no Tempo, é só memória alheia a calendários. Contudo, desafiador, ainda vive; palmilha insondáveisterrenos do Grande Tempo (quem sabe, ao nosso lado, para o conforto ou o desconforto de quem, inesperadamente, tropeça nele e o reconhece, ou nele mergulha: a alegria ou a agonia do presente se abrindo no passado que voltou a ser!)

Presente é o tempo zero - o “instante-já” de Clarice Lispector; “pirilampo que acende e apaga”; triz “em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão”; o território lábil a um instante do que foi e a um átimo do que será; o momento luz do pirilampo; um nada na vida. Porque a vida, na verdade, é só memória.

Só memória?
A Teoria dos Muitos Mundos fala na existência de universos paralelos iguais ao nosso; na verdade, derivados do nosso, onde eu e você, leitor, podemos estar mortos, e nossos mortos estarem vivos. Hipótese perturbadora, que mina o conceito linear de tempo. E mais, o de dimensão. A recente Teoria das Cordas prevê a existência de onze dimensões, contando com as que já conhecemos - três de espaço e uma de tempo. Einstein, havia muito, cria no tempo como mais uma dimensão, e ele mesmo pode estar vivo em um universo paralelo, eventualmente interagindo - por que não? - com o nosso. Não acho difícil aceitar o espaço da física quântica, dos quarks, alinhado ao das ágoras, dos filósofos, na antiga Grécia. Logo, o mundo vai longe no tempo, mas o mar das primeiras águas está logo ali, na janela que se abre para a noite.

Sendo assim, as amendoeiras continuam ensombrando nossa rua pueril, silenciosas, cheias da sabedoria do verde que viveu muitas mortes e renascimentos. O carinho de mamãe está aqui, bem vivo, ensinando-nos a doçura da palavra amor, inscrita no corpo dos biscoitinhos de chuva e na alma de suas mãos de fada, a criá-los nos dias frios, a servi-los com “leite queimado” - sabor e cheiro de aconchego, de açúcar dourado em canela, aromando a casa. Aqui estão os domingos de ida a Petrópolis - “para comprar caramelos D’Angelo, comer torradas amanteigadas e tomar chocolate quente’; o carro avançando, vencendo o nevoeiro, buscando futuro e escrevendo passado entre as hortênsias, na estrada da serra. Na volta, sobre o passado escrito, uma visita aos “alemães” para comprar ‘as melhores mil folhas e bombas de creme do mundo’, como papai costumava dizer.

A vida simples; a casa pequena e sem luxo; o amor, presente nas primeiras visões de mundo que, pressentíamos, nunca se perderiam no tempo, no espaço, ou em qualquer outra dimensão: ei-los, lá e aqui, vindos do “fluido país/ do pensamento visível”, de Cecília; reencontrados no campo da ciência e no universo sem paralelos do amor.


Eny Miranda,
médica, poeta e cronista

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