Amanhã

Por: José Borges da Silva

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Antes das seis da manhã o bem-te-vi guincha alto desde a amoreira, ou desde a goiabeira, enfim, desde o aglomerado de árvores do fundo do quintal. Depois, silencia. Mas, acorda a todos. A mulher se levanta, desperta o filho, que dormira de novo, após desligar o alarme do celular. É hora de ir à escola. Alguns minutos mais e uma fábrica das vizinhanças liga a maquinaria barulhenta, o cachorro do vizinho desanda a latir, o zumbido do trânsito ressurge ao longe, indicando o reinício da ciranda automotiva da cidade. Uma senhora chega ao trabalho no Abrigo de Idosos em frente e buzina, para que lhe abram o portão, a mulher sai apressada na missão diária de levar o filho à escola e, afinal, começa o dia, é hora de levantar, de fazer a barba, de encarar o espelho, que registra minuciosamente as tribulações de cada dia. O desjejum é feito em pé, ao lado do balcão da copa, que tomar café com a família reunida à mesa há muito virou coisa de cinema, de filme antigo, é claro! No trânsito, sempre aquele chato querendo ultrapassar a qualquer custo, o jovem fazendo vibrar a estrutura da matéria de que é feita a rua, os carros, o Universo, com o som aberto no último volume, além do motociclista serpenteando no meio dos autos e, naturalmente, daquele senhor tranqüilo que resolve mexer no porta-luvas justamente quando o sinal abre e por isso é homenageado com um coro de buzinas e de elogios cujo teor não fica bem registrar aqui. E são dez para as oito ainda! No trabalho, o telefone passa à frente o vendedor de produtos bancários, despertando a ira do contribuinte, velho conhecido, que jura por tudo o que é sagrado que o imposto que declarou pelo sistema eletrônico não é devido, deixando desconfiada a estagiária mocinha... E há a defesa a ser feita no processo judicial, o caso instigante do assaltante quer indenização moral da vítima e do Estado, alegando que esta última e a polícia o humilharam, ao impedir que alcançasse o seu objetivo...

À tarde o cansaço não parece ser apenas do dia. Há desalento profundo com os rumos que a vida social vai tomando... A perspectiva de qualquer compromisso noturno desanima, causa aflição e desgosto. A antevisão do noticiário da televisão é desagradável: corrupção, violência, crimes de toda ordem, a indicar que a vida em sociedade se aproxima do ocaso e, findará, com certeza, se algo não for feito de imediato.

Mas, ainda a caminho de casa as circunstâncias começam a mudar gradativamente, conforme vai se alterando a paisagem. Felizmente nem tudo é mau agouro. A própria mente reluta em aceitar só misérias morais. Ainda bem que a vida humana é mágica, que tudo é relativo, que os pensamentos que a conduzem podem criar outros matizes, buscar outras paisagens, ditar outros rumos...

Há a perspectiva do reencontro com a família, com a partida de futebol pela TV lá pelas tantas, a possibilidade do repouso no aconchego do lar.

E há mais: o velho cão vira-latas, que antes mesmo de o automóvel estacionar em frente ao portão, já se agita, celebrando efusivamente o retorno do amigo, independentemente da cara que apresente.

Ainda bem que há sempre um novo dia. O amanhã, a despeito de tudo é depositário de esperanças, alento para travessias difíceis na jornada de cada dia. Ainda bem. Ainda bem que tudo, tudo, de bem e de mal, é breve, relativo e provisório, e findará e nascerá e findará e nascerá, de novo, em cada dia. Ainda bem!


José Borges da Silva,
procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras

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