Quase milionários

Por: Paulo Rubens Gimenes

Ao saudoso amigo José Henrique Enciso

Para a juventude dos anos 1980 nada era melhor que trabalhar em uma agência bancária. Gente bonita, horário flexível, salário razoável pra um jovem com poucas responsabilidades, era um emprego dos sonhos. E eu tive este emprego no Banco Nacional.

Realmente, a galera que trabalhava lá, dos gerentes aos contínuos, era muito especial; sempre disposta pra uma boa festa ou pra aprontar gozações uns com os outros.

Dentre os hábitos de muitos funcionários estavam as apostas semanais na Loto ( naquela época não havia ainda a Sena, tampouco a Megasena). Infalivelmente, toda semana esta turma fazia um “bolão” e sonhava com fortunas.

A rotina era esta : segunda-feira - colhiam o dinheiro e faziam diversos jogos na loteria que ficava ao lado do banco; quinta-feira- o João Borracha, solícito guarda do banco, ia até a mesma loteria e trazia anotado em um papel os números sorteados; o Joel da tesouraria conferia os números, suspirava, maldizia sua sorte e comunicava aos esperançosos participantes que não fora daquela vez....mas, na próxima acertariam.

Uma vez o prêmio acumulou-se por quatro semanas, ficando bem polpudo e despertando a cobiça dos abnegados jogadores. A estes, outros funcionários se juntaram e fizeram um grande número de apostas, aumentando assim as chances de ganhar.

Repetiu-se a rotina: segunda-feira fizeram os jogos na loteria vizinha e na quarta-feira o João Borracha foi pegar os números sorteados... Aí é que a rotina se alterou um pouco. Zé Henrique, o nosso gerente brincalhão, anotou os números de um dos jogos efetuados pela turma e pediu pra que o João Borracha dissesse que estes é que haviam sido sorteados.

Como o prêmio era acumulado, a conferência não ficou só por conta do Joel, muitos outros se acotovelaram ao seu lado conferindo jogo a jogo os números. É claro que em determinado momento acharam o jogo “premiado”.

Alegria geral, gritaria, bagunça, afinal todos os participantes estavam milionários. Aos que não participaram do bolão, eu entre eles, restou lamentar a oportunidade perdida.

Zé Henrique, debaixo de sua mesa, e o Borracha, dentro da guarita, se matavam de rir enquanto a alegria contagiava todos. Alguns clientes presentes na agência aplaudiam os sortudos e a alegria cresceu e virou bagunça. Alguns mais exaltados maldiziam o banco com frases: “Tô livre desta porcaria”, batiam nos arquivos e gritavam. Alguém ameaçou subir na mesa e fazer um streap tease, quando o Zé Henrique, temendo pelo emprego de algum companheiro, revelou a trapaça.

Brincadeira é brincadeira, mas muitos ali não levaram na esportiva e acabou sobrando para o simpático João Borracha que levou bronca durante algum tempo.

No fim, ficou mais uma história engraçada pra contar daquela turma tão especial. De um gerente brincalhão, de seu cumplice e de uma turma de quase milionários.

Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca

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