Trinta e oito anos

Por: Ronaldo Silva

Cheguei a uma idade
em que os versos são cada vez mais raros.
E em que o coração já não
inquieta-se mais à procura de amor.

É um meio de caminho,
um lugar desconfortável
entre os ideais da juventude
e as ideias da maturidade.

As despedidas dos mais velhos
ficam mais corriqueiras (e mais sofridas!).
Passo a valorizar bem mais
cada momento ao lado deles.

Quero ler a louca lucidez de Clarice,
Tenho a mão direita firmemente
apoiada no ombro de Drummond.
No mar-poesia eles remam minha frágil canoa.
E vou recolhendo peixes-versos.

A cabeça ferve com centenas de poemas.
Todos querem espaço no papel.
Letras estão saltitantes em sua alegria quase pueril.
Importante, mesmo, contudo, é pagar as contas
e garantir o nosso padrão de vida
de classe média sorridente e feliz.

Assim, sigo vendendo os meus sonhos,
o melhor da minha intelectualidade e
o mais belo das minhas paixões.
Oito horas por dia, religiosamente.

Ronaldo Silva, vendedor, universitário

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