‘Anunciação’

Por: Eny Miranda

Estava eu aqui, diante desta folha em branco, a divagar sobre uma pauta fictícia, entre violinos e fagotes e trompas e tímpanos... e orquestras inteiras, tentando tirar deles, além de notas, letras; buscando criar palavras-música e com elas erguer e compartilhar um sonho; estava eu, portanto, em estado de poiesis (no seu sentido primeiro, o de criar, construir, transformar e, ao mesmo tempo, permitir a perpetuação de algo), quando fui trazida subitamente a este plano: “Olha o que acabo de achar! Faz tempo que não vejo uma”, diz a Cida (a que me ajuda a manter a casa limpa e as plantinhas viçosas). Diz e vai abrindo a mão direita sobre a minha - já timidamente espalmada -, nela deixando uma coisinha leve e amorável que havia muito eu também não via: uma pequenina meia esfera alaranjada coberta de pintinhas negras, que já passeia com desenvoltura sobre o solo vivo da pele.

Apesar dos ares terrenos (ou arbóreos ou, neste momento, cutâneos), logo faz clara a sua intenção de tomar rumos bem mais elevados. Como no rápido desfazimento de um origami, desdobramento inopinado de irretocável obra de arte, abre as asas (o leitor já viu que coisa insólita é uma joaninha abrindo as asas?) e some de nosso campo de visão. Foi como se eu tivesse despencado de um céu a mim inesperadamente entregue. Aquele voo repentino da joaninha me leva ao chão, mas, num triz, me e-leva de volta às notas, aos fios melódicos - talvez porque também aéreos, voadores, fugidios, oníricos.

Agora eu, “bicho da Terra, tão pequeno”, desejo possuir asas-origami que se desdobrem e me levem a outros céus. Então, dou-me ao vento; solto-me, bolha no espaço. Pegando um corredor de ar favorável entre os complexos mecanismos do pensamento e seus registros, vou, capturando imagens aqui e ali e levando-as a uma nova retina. Lá reunidas, elas mostram o cenário silencioso de um território europeu (as analogias e inferências mentais são tão inexplicáveis quanto preciosas; muitas vezes incrivelmente precisas).

Estou no Festival Internacional de Balões de Lorraine, em Chambley-Bussières, leste da França. O espetáculo é de uma beleza e de um poder simbólico extraordinários. Centenas de bolhas coloridas e tripuladas passeiam entre céu e Terra, em ousada união de sonho e matéria. Centenas de homens e suas belas asas não desdobráveis flutuam no espaço das joaninhas. Não há música audível, mas violinos e fagotes e trompas... estão lá. Está lá uma orquestra inteira, uma silenciosa orquestra de mil vozes. À minha frente, palavras de Clarice Lispector levitam, polifônicas: “Cada ser humano recebe a anunciação: e, grávido de alma, leva a mão à garganta em susto e angústia. Como se houvesse para cada um, em algum momento da vida, a anunciação de que há uma missão a cumprir.”

Grávida de beleza, volvo a mão à pena, neste momento de anunciação. Em mim não há susto nem angústia, só verbo.

Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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