Literatura como resistência

Por: Vanessa Maranha

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A literatura marginal, como gênero literário, surgiu na década de 70 seguindo até o final dos anos 80 e teve por santo padroeiro o francês Antonin Artaud., congregando, em terras tupiniquins, nomes como Cacaso, Ana Cristina César, Chacal, Leila Mícollis, Alice Ruiz, Torquato Neto, Glauco Mattoso e o papa de todos, Paulo Leminski.

Foi uma resposta à Ditadura Militar, com delineações estéticas semeadas pela Geração Beatnik norte-americana, equalizadas pelo Surrealismo francês, erguendo-se, por fim, sobre três blocos da lírica de vanguarda que então se colocava: poesia concreta, poesia práxis e poema processo.

Essa produção estava à margem do circuito editorial estabelecido (daí o recurso ao informal), mas era feita por jovens de classe média alta.

Na década de 90 a literatura marginal volta à cena numa outra significação: aquela produzida por jovens moradores dos subúrbios das grandes cidades. Na radial da exclusão socioeconômica, a literatura que se apresenta retoma a tradição fundada por Carolina Maria de Jesus (Quarto de Despejo) em seus contornos de denúncia e contestação sociopolítica e vai mais adiante, estilizando-se nos signos da cultura do rap e do hip-hop e se convocando em cooperativas e iniciativas comunitárias com a promoção de saraus e oficinas que já se espalham pelas capitais do país e ganham visibilidade para além das fronteiras periféricas. Não mais o mimeógrafo, mas a literatura de protesto como arte popular viralizada pela internet; nas associações a que se filia, nos grafites, nas antologias, nas vozes dos rappers. Desde Cidade de Deus, de Paulo Lins, há na produção literária marginal uma unidade visível. Vigorosa, militante e não convencional, mas, ainda, a palavra como arma sem pólvora, instrumento e símbolo de resistência.

Em São Paulo, o grau zero dessa literatura (também chamada suburbana, periférica ou divergente) está na produção de Ferréz, com Capão Pecado, um livro que retrata crua e realisticamente a violência propulsionada pelo tráfico e pela pobreza na periferia paulistana e tematiza o cotidiano das zonas economicamente desfavorecidas mostra a cara e a verve do homem do povo na contemporaneidade. O autor, ligado ao movimento 1daSul, que promove ações culturais irradiadas às favelas e presídios, intermedia a publicação de outros autores marginais na revista Caros Amigos, que acaba então por consolidar, para outros públicos, um segmento literário.

Cronologicamente esse gênero encontra seu ponto de ebulição em 2002, com a criação, pelo poeta Sérgio Vaz, da Cooperifa- Coperativa dos Poetas da Periferia com ações que revalorizam e estilizam a cultura de rua em todas as manifestações. A Cooperifa, instalada numa fábrica abandonada em Taboão da Serra, em São Paulo, como se verá, servirá de modelo para iniciativas parecidas em outros estados do Brasil. “Acho que por conta da simplicidade da Cooperifa, por acontecer num bar, incentivou outros coletivos”, explica Vaz.

A literatura e a cultura hip-hop como resgate do vício das drogas e grito contra as desigualdades: assim Alessandro Buzo, outro importante nome do palco literário suburbano qualifica o seu mergulho nas letras. Sua estreia na literatura se deu com o livro Trem baseado em fatos reais, lançado em 2000 e que descreve sua infância e adolescência como office boy. Agitador cultural, promove os eventos de hip-hop no Itaim Paulista, é proprietário da livraria Suburbano Convicto, dirigiu o filme Profissão MC, premiado em Gramado e desde 2008 apresenta um quadro no programa Manos e Minas, da TV Cultura.

Sacolinha (pseudônimo de Ademiro Alves), de Suzano, lança, em 2002, a Associação Cultural Literatura no Brasil, desperta a atenção da mídia e se transforma em objeto de estudo, em 2006, pela pesquisadora da USP Érica Peçanha, que publica sua dissertação de mestrado em Antropologia sobre a literatura marginal das periferias paulistas.

A classificação literária pode ser tarja de difícil transposição, mas esses autores parecem não se preocupar com isso. Sérgio Vaz diz que a denominação ‘literatura marginal’ não lhe é incômoda. “Mas prefiro literatura periférica, por conta do pertencimento”, considera. Sacolinha não problematiza o gênero literário: “Faço literatura somente. Leitores, críticos e professores me categorizam, mas eu faço literatura apenas. Se marginal aqui estiver ligado à margem, então sempre existiu literatura marginal, o que acontece agora é que hoje ela aparece”, debate.

Alessandro Buzo é assertivo também nesse aspecto: “ não me importo com o rótulo. ‘Literatura marginal’ nos define porque estamos geograficamente à margem da sociedade. O que estamos fazendo é literatura. Escrevo porque minha raiva das desigualdades sociais era grande demais pra ficar dentro de mim e gritei pro mundo. A literatura marginal hoje tem uma cena”.

Quase uma versão paulistana do carioca Gentileza, Samir Mauad diz encontrar na street art a sua expressão. Ganhou visibilidade em 2004, com a frase “ODEIE SEU ÓDIO” em spray num muro, criou o site Estudo Concreto e não parou mais. Ele conta que se inspira no que de mais comum pode haver no dia a dia e não se incomoda com estigmas: “a literatura marginal é poética e real, é o que é, é o que somos. Qualquer intervenção leva o olhar do espectador para fora do cotidiano, pode levar o espectador para o humano, para o real, isso para mim é a recompensa”, reflete Mauad.

Para Adriana Kairos, coordenadora do projeto ALEPA- A Literatura dos Espaços Populares, na favela da Maré, Rio de Janeiro, literatura marginal é aquela produzida num espaço de exclusão socioeconômica, não apenas literária. “O que me importa mesmo é ver como nós nos reinventamos em nossos textos”, diz ela.

Baseando-se na experiência da Cooperifa, em Belo Horizonte (MG), Rogério Coelho idealiza o Coletivoz. No Rio, nos mesmos moldes, surge o APALPE- A Palavra da Periferia, um projeto de intervenções urbanas coordenado por Heloísa Buarque de Hollanda, oferecendo a Escola Livre da Palavra, com oficinas de literatura que procuram, nominalmente, “punks, travestis e vendedores de rua” dispostos a escrever as memórias da Lapa.

Em Salvador, o Coletivo Blackitude fervilha sincrético, como não poderia deixar de ser na Bahia, a de todos os Santos, com o Sarau Bem Black.

Para além do preconceito positivo que alguns desses discursos suscitam, tais manifestações vão na contramão daqueles que insistem em decretar o fim da literatura. Mostram que ela resiste na inscrição de novas formas de pensamento e estilos, se reafirma na diversidade de vozes e, sobretudo, ao retratar o seu tempo.

Vanessa Maranha , psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida, Cadernos Vermelhos e  OITOCENTOS E SETE DIAS 

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