Espionagem

Por: Chiachiri Filho

Quem já não olhou por um buraco de fechadura? É bom, não é mesmo? Dependendo do foco, chega a ser emocionante! Mas, sem dúvida, pode ser um ato pecaminoso, uma transgressão, uma invasão de privacidade.

Uma vez, pelo menos uma vez, lancei meus olhares infantis por um buraco de fechadura. Antes, porém, de ver uma prima mais velha se despindo, uma mão paterna vigorosa tirou-me do buraco e repreendeu-me:

— Tenha modos, menino!

No edifício Sabino Loureiro, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito mantinha , na década de 60, sua sede social. O vitrô do banheiro dava para a janela do quarto de uma pensão onde moravam algumas estudantes da Faculdade de Filosofia. À noite, depois das 10 horas, quando as meninas recolhiam-se para o sono reparador, o banheiro do Diretório, com a luz devidamente apagada, ficava lotado de marmanjos para vê-las trocarem de roupa. Havia empurra-empurra, cotoveladas, chega pra lá. Mas, valia a pena: a visão era agradável, inesquecível e devidamente resguardada pela escuridão e pelo sigilo ( só agora revelado ).

Percebe-se que a Presidenta Dilma está profundamente revoltada com a espionagem norte-americana. As mulheres, sem dúvida, são mais sensíveis aos olhares indiscretos. Recatadas, elas se rebelam com a invasão de sua privacidade. Por outro lado, o Presidente Lula, ao longo de seus oito anos de mandato, jamais reclamou de qualquer espionagem por parte dos E. U. A. O fato de ele não reclamar não nos leva à certeza de que não tenha existido. É claro que ela existiu antes, durante e depois do governo de Luís Inácio. A gravidade está em sua descoberta, em sua publicidade. Por conseguinte, a Presidenta Dilma tem o direito e o dever de protestar contra a leitura de seus e-mails, a oitiva de seus telefonemas. E sabe-se lá se foram somente e-mails e telefonemas. E se a curiosidade de Barac Obama foi a mesma do menino travesso que punha os olhos no buraco da fechadura. Neste caso, só há duas atitudes possíveis: ou o Presidente Barac se desmancha em elogios à silhueta da Dilma, ou só restará à vexada Presidenta uma formal declaração de guerra.

Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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