Bóris

Por: Janaina Leão

Queria contar hoje que descobri que existe alegria na dor. Às vezes sentindo o peito doer, o olho ardendo com as lágrimas que saem quentes- cheias de sal, o coração amarrado... Às vezes, mesmo assim, consigo sorrir para meu cachorro que solicitamente está na soleira me olhando com compaixão e dizendo:

_ Venha, alise meu pelo e sinta que na vida existem coisas macias, caminhos suaves, dores suportáveis, saudades/boas- eternas e, alegrias possíveis.

Bóris é meu mestiço de Labrador. Adotei-o na clínica do Doutor dos Olhos Verdes, que tem uma esposa Veterinária: taurina do dia doze de maio como eu , como minha Tia Dina...Pessoas de coração bom. Ele é um cachorro “vitimizado”: como eu já fui um dia.

Algum ser humano, segundo a história, morador de Tristeza Profunda M.O. jogou água fervendo em suas costas, enquanto ele realizava o ato instintivo de cruzar com uma cadela. Bóris ficou um tempo na rua, sofrendo. Não consigo imaginar a dor, ou consigo um pouco, pois queimei a perna na moto várias vezes... O pelo caiu onde a água fervente entrou mais fundo, até hoje não cresce pelos nesta parte, mas graças ao bom Deus e a São Francisco protetor dos animais e minha Iansã, que não deixa ser vivo desistir da vida - hoje ele é saudável, gordinho- lindo, alegre e, o pelo longo acaba tapando quase metade da ferida.

Neste momento, quando eu, já terminando este texto, olho na sua direção, noto que ele percebe que parei de chorar, e meu peito começou a desapertar. Comunica então com seus olhos castanhos- fortes e suaves:

_ Tem alegria na dor. Vocês que não sabem.

Lambidinha de parceria na minha mão, carinho gratuito. O cachorro é mesmo o melhor amigo do homem. Agora, com licença, vou abraçar o meu.

Janaina Leão, psicóloga

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