A Perfeição, conto de Eça de Queiroz

Por: Maria Luiza Salomão

No canto V da Odisseia de Homero, na ilha de Ogígia, reina a bela deusa olímpica Calipso, cercada de ouro e prata e cantos de pássaros na ilha paradisíaca, que retém Odisseu por 7 anos. Ele geme e chora, nostálgico, e quer voltar para Penélope, à Ítaca que deixou, contrariado, por conta da guerra de gregos e troianos, que durara 10 anos.

Eça de Queiroz, autor português, milênios depois, recria o mesmo episódio. Odisseu, ao se assegurar, prudentemente, que não teria qualquer retaliação na realização do seu maior anseio - retornar a Ítaca - responde à deusa Calipso, que o liberta, mas quer saber por que ele rejeita o que ela lhe oferece, imortal beleza:

“sei que Penélope te está muito inferior em formosura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente bela e moça, enquanto os Deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores da decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fonte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas, oh Deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congênere! (...) Em oito anos, oh Deusa, (...) trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. (...) nunca gozei a felicidade de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a força do meu entendimento! Oh Deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! (...) Oh Deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais—«Foi culpa tua, mulher!”—erguendo, em frente à lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários!”

Do Odisseu de Homero, ao Odisseu de Eça, mentalidades abismam. Eça desdobrou a paradoxal humanidade de Ulisses, o solerte, o homem de mil artifícios, o sofrido, o experiente, o sutil, o astucioso Odisseu. Quem é íntimo de alguém que tem sempre razão e nunca altera o humor? Como reavivar paixões, sem ventos ondeantes e contrários?

Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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