Da montanha à planície

Por: Chiachiri Filho

Há certas atividades humanas que não admitem abdicação ou renúncia. Uma delas é o jornalismo. Quem nasce jornalista deve morrer jornalista. O jornalista é um crítico da sociedade. Ele acusa, ataca, põe o dedo nas feridas. Enquanto no exercício de suas funções, ele é bajulado, admirado, aplaudido. Cercam-no de todos os lados, riem de suas ironias, concordam com suas idéias. Porém, quando abandona a carreira, vê-se também completamente abandonado. Vira um trapo. Os bajuladores somem, desaparecem ou, pior ainda, situam-se em posições estratégicas para acertarem-no com suas pedradas.

A política é outra carreira ingrata. Uma vez político, morra político. Por mais que ele tente agradar , acaba sempre desagradando a alguns. É muito difícil contentar a todos. Enquanto no poder, a corte o envolve, louva-o e incensa-o Ao fim de cada mandado, ele sofre a indiferença, os apupos, o ostracismo.

Veja, prezado leitor, o caso do Zé Genuíno e do Zé Dirceu. Até pouco tenpo atrás, Genuíno era o chefe prestigiado do PT. Tinha força, poder, bastão e mando. Era o grande chefe do partido mais poderoso do Brasil. Agora, condenado, adoentado, negam-lhe até o direito de aposentadoria. E o Zé Dirceu? Ministro todo poderoso da República, mandava e desmandava, dava as cartas, controlava o jogo. Recebia homenagens de empresários, proletários, usurários e salafrários, isto é, gente de toda espécie e categoria social. Agora, sentenciado, querem vê-lo mofar numa penitenciária comum, numa cela comum, no convívio com criminosos comuns.

Triste fim dos “zés”, ex-guerrilheiros bem sucedidos , famosos, reverenciados pela esquerda, pelo centro e até pela direita e, atualmente, desprezados e destratados por todos, até mesmo por aqueles a quem serviram.

Triste fim daqueles que, um dia, viveram e respiraram os ares puros das montanhas e, agora, foram lançados na planície ou, pior ainda, num vale de lágrimas . Dos píncaros da glória, foram atirados às profundezas do abismo onde se encontram sem lei, sem rei, sem grei e, principalmente, sem mensalão.

Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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