Roupagem perene

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Meu desejo: externar-lhe, amor, o meu amor. Só isso.

Ergui, para tanto, idealizações várias.

O meu desejo chegaria preservado em vasilhame rico no pote que a pureza guardou desde sempre, ao pé do arco-íris. Sua busca, porém, resultou inútil, pois as cores brincalhonas ludibriavam-me, escondiam-se atrás de montes e de horizontes, sempre que delas me aproximava. Eu corria em todas as direções, a exaustão me envolvia, o sol aparecia, as cores todas se diluíam, e se perdiam no infinito.

Fracassada aquela opção, meu entusiasmo abraçou outra. Enviaria minha mensagem envolta em perfume. Imaginei que ela poderia chegar em buquê de margaridas, ou de tulipas, ou de rosas, ou de beijos-de-moça. No entanto, na fração de tempo em que a indecisão demorou, e já um começo de tarde murchava as pétalas da margarida, da tulipa, da rosa e da beijo-de-moça. E o emurchecimento repetia a lição que eu lhe repito: nenhum perfume e nenhuma beleza contém a atemporalidade de meu afeto.

Então, derramei os meus olhos por sobre a paisagem e colhi um de seus milagres. Mandaria fundir, em ouro e prata, uma dezena de crisântemos. As pétalas, brancas; os caules, dourados. E, protegido por solidez tamanha, lá no seu bojo, iria o meu afeto. A opção, porém, durou apenas o tempo da chegada da consciência apenas adormecida: o ouro e a prata são objetos maiores da cobiça. Assim, só protegeriam o meu apreço se permanecessem eternamente protegidos no escuro de um cofre, sob pena de tudo conteúdo e continente ser surrupiado.

Eu desejava tão somente, amor, externar o meu amor. Só isso.

E todavia, as cores, os perfumes, as riquezas se revelaram insuficientes e pobres, incapazes de satisfazerem o meu intento.

Desejoso só de lhe externar o meu amor, amor, recorro então ao único recipiente que acredito sólido e rico e belo o bastante: palavras onde espero abrigar meu céu de afetos.

Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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