O homem do rolo de tinta

Por: Júlia Moscardini

“A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria que não significa nada.”
Shakespeare

O rolo de tinta vermelha percorre a faixa branca do muro marcando como um sorriso a fachada pálida. De cima do muro o homem corre o rolo pra lá e pra cá enquanto assovia tons desconexos. O boné esconde o rosto do sol do fim da manhã que já arde os braços expostos. A roupa velha com pingos de tinta branca e vermelha o acompanha na nova empreitada e os sapatos com cadarços de barbante envolvem os pés que com dificuldade se equilibram no alto do muro.

Um carro branco, daqueles grandões, estaciona rente à calçada cujo muro está sendo pintado. Um garoto de bochechas fartas e rosadas salta do veículo com pressa, agarra a mochila pesada, corre em direção ao portão e some no caminho coberto de telhas de plástico azuladas. O carro arranca com tanta força que até os pneus reclamam soltando um gritinho abafado, e vira na primeira esquina.

O homem continua a dança dos rolos de cima do muro. A tinta vermelha parece refletir e dar sinal aos carros, que ao ver a nova cor, brecam. Uma mulher aproveita a brecha e atravessa a rua com passos largos ameaçando começar uma corrida até chegar ao outro lado. E vai diminuindo o ritmo. Na mão esquerda uma sacola grande e preta, na direita só o peso dos anéis e pulseiras prateadas. Os cabelos ajuntados no topo da cabeça não se movimentam enquanto os olhos se dirigem para cima e avistam o homem do rolo de tinta que interrompe por um segundo o sorriso da nova fachada. Ao olhar para baixo, ele visualiza um ninho preto bem estruturado e preso por algo que brilhava e refletia o sol. O ninho se mexe e abaixo dele revela um par de olhos curiosos. O homem do rolo de tinta balbucia duas palavras que desencadeiam uma interminável conversa enquanto a fachada se contenta com seu meio sorriso.

Um grito interrompe a conversa. Ele vem de uma boca da cor do sorriso da fachada. Uma amiga, também com uma sacola e os cabelos presos como um ninho, porém mais claros, se aproxima. As duas se encontram e põem-se a caminhar. Antes de tomar distância, a do ninho mais claro olha para cima e cumprimenta o homem do rolo de tinta, que responde. Ainda caminhando lhe faz recomendações, afinal com o peso da idade não se pode brincar, ainda mais em cima de um muro. Os três soltam uma risadinha acanhada que quase se assemelha ao meio sorriso da fachada. As amigas partem com suas sacolas e seus ninhos, e o homem do rolo recome ça a dança com a tinta.

- É a vida, não é? filosofa uma das mulheres.

- Sim, fazer o que, né? conclui a outra enquanto se distanciam.

Júlia Moscardini, psicóloga

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